O Rapaz do Crucifixo no Braço

Era uma vez um rei que maltratava a mulher porque a mulher não tinha filhos. E um dia a senhora, a rainha estava a chorar, e aparece um mulherzinha e que lhe disse:

— Porque chorais, rainha minha senhora?

— Ora, porque eu sou muito maltratada pelo meu marido, porque eu não tenho filhos.

— Então está bem. Tome lá esta pêra. A senhora coma a pêra e depois verá como a senhora fica grávida.

E assim foi. A mulher, a rainha, a rainha comeu a pêra e quando sentiu que real..., realmente ela estava grávida, disse ao rei. Disse ao rei, ora aquilo foi uma grande festa, foram pobres, foram ricos, tudo foi festejado. Passou-se o tempo, e a senhora, a rainha teve dois filhos, teve dois filhos, um era forte; e o outro nasceu com um crucifixo no braço. Mas como o rei era muito herégio, que é que faz a rainha? Enrolou logo o braço do miúdo para que ele nunca chegasse a ver. Mas um dia, ela estava dando banho ao filho, e quando aparece o rei. Aparece o rei e viu o crucifixo no braço da criança. Ora, foi assim que ele pôs logo a mulher na rua e o filho. A rainha passou muito para criar o filho, porque ele tinha aquele defeito no braço. Mas um dia o rapaz foi à procura de uma casa. E onde entrou numa casa que não tinha ninguém, e bem:

— Então esta, esta serve para mim.

E foram, ele foi, foi buscar a mãe. Pois ali não estava ninguém e viviam ali muito bem. Mas, quando ele, quando ele entrou (assim é que é), andava à procura da casa, não viu ninguém, e então aparece-lhe um homem. Aparece-lhe um homem, e o que é que faz o homem?

Diz assim:

— Olha, agora tens de te, agora tens de te bater comigo, com a minha espada.

Ele vai buscar uma espada velha ferrugenta, e trouxe uma dúzia de espadas novinhas, brilhantes e disse:

— Olha, toma lá, agora escolhe. Estas aqui são mais bonitas, são melhores, esta já está velha.

E então o rapaz disse assim:

— Não, eu antes quero esta velha.

Mas é que a velha era de aço, e as outras eram de vidro: ele tocava nas, nas espadas, as espadas partiam-se. E ele conseguiu ferir o gigante. Mas aquilo tinha um subterrâneo e ele, o gigante meteu-se lá. E quando ele sentiu que havia gente lá em cima, começou a gemer. Ora, a rainha viu aquele gemer e depois foi ver onde era, foi ver o que era. E então viu que era num alçapão, que estava lá aquele homem metido. Então, vai ela, e tratou do gigante e o gigante pôs-se bom. Pôs-se bom, e ela depois foi amante dele. E depois dizia assim:

— Tu tens que matar o meu filho.

— Ai, isso é que eu não faço. Porque ele é um rapaz inteligente, isso é que eu não faço. Bem, mas se tu queres, diz-lhe a ele que vá à torre da má hora buscar um limão que está no limoeiro, e com esse limão tu pões-te melhor – porque ela fez-se doente.

Bem, ela diz-lhe:

— Estou muito doente, e tu se fosses buscar o limão que está na torre da má hora, eu punha-me boa.

— Está bem.

O rapaz foi a cavalo, e quando o rapaz ia a caminho, os sinos dobraram. E havia lá um senhor que era sapateiro e tinha uma filha. E disse para a filha:

— Olha, os sinos estão a dobrar, quem será que vem aí?

Vai então, o rapaz, como era uma estalagem assim... alojou-se lá. E disse ao homem o que é que ele ia fazer: ia buscar o limão à torre da má hora, para curar a mãe. E o homem disse:

— Está bem. Tu vais buscar, mas tu se ouvires chamar por ti, tu não olhes para trás. E apanhas o limão e deitas-te logo a correr.

E foi assim. Depois... quando voltou, foi lá ficar outra vez, e o homem da estalagem tirou, tirou um limão bom e pôs outro. Bem, e depois ele foi para casa e disse:

— Está aqui o limão.

Claro que a rainha esfregou-se com o limão, e aquilo tudo, e parecia que já estava melhorzinha. E então, aquilo passou. Diz assim:

— Tu, tens que matar o meu filho.

— Ai isso é que eu não faço! Ele já foi à torre da má hora, e quem lá vai já não torna. Ele foi e voltou, eu não faço uma coisa dessas. Só se tu fizeres que estás doente e diz-lhe para ele ir buscar uma garrafa de água que está no armário na torre da má hora, e tu lavando-te com aquela água, tu pões-te melhor.

E ela fez-se muito doente, que estava muito mal, e então o filho perguntou-lhe com que é que ela se curava. E ela, ele, ela disse:

— Olha, se fores à torre da má hora e fores buscar uma garrafa de água que está lá no armário, eu ponho-me boa.

Vai o rapaz, e foi. Foi e ficou outra vez na mesma casa de que era costume ficar. E disse ao homem o que ia fazer, que ia buscar a garrafa à torre da má hora, Para curar a mãe.

— Está bem, tu vás, mas se ouvires a chamar por ti tu não olhes para trás. Apanhas a garrafa e deitas-te logo a correr.

E o rapaz assim foi. Chegou lá, apanhou a garrafa, e na mesma veio-se embora. A rainha, quando viu vir o filho, ora ficou toda danada, porque ...

— Está aqui a garrafa da água, para te lavares, para te pores melhor.

Assim foi: ela lavou-se com a garrafa de água, e ela fez que estava melhor. Depois mais tarde, começou outra vez a andar doente. E disse ao filho, ao rei, ao.... (ai!), ao gigante:

— Tu tens que matar o meu filho!

— Ai isso é que eu não faço! Porque ele é um rapaz muito inteligente, e já tem ido duas vezes à torre da má hora, e quem vai lá já não torna, e ele tem ido e tem voltado. Só se tu disseres que há uma serpente na torre da má hora, e ele tem que matar a serpente, e trazer o, trazer as banhas da serpente, porque tu curas-te com aquilo. Vai ela, a mulher diz assim:

— Ai, estou muito mal. Se tu fosses à torre da má hora a buscar... cortar as banhas duma, duma bicha, duma serpente, e eu ponho-me, eu ponho-me boa.

— Está bem, eu vou.

Vou, e foi pernoitar outra vez na mesma casa. E contou ao homenzinho o que ia fazer, que ia buscar as, as banhas da torre da má hora, para curar a mãe. E ele diz assim:

— Tu vás, mas olha, o tanque está cheio de água. Tu tens que bazar o tanque, e estão lá umas barricas de vinho de tremente(?), e tu enches o tanque com aquelas garrafas de vinho, e a bicha vem danada com sede, e bebe aquilo tudo, e a .... a serpente morre, e tu tiras as banhas e vens a correr.

E o homem foi, o rapaz foi, quando... (?) o tanque e encheu o tanque de vinho, e escondeu-se por trás das barricas. Quando ele viu ver aquela grande serpente, e jogar-se dentro da água, dentro da, dentro do vinho, e... a serpente ficou... ficou morta! E ele então tira as banhas da, da serpente, e corre e (?) veio embora para casa. Torna outra vez na, naquela casa. O homem tirou as banhas da bicha e deu, e pôs-lhe outra banha qualquer. E ele veio todo satisfeito com aquela banha que ia, que vinha curar a mãe. Quando eles estavam à janela, os dois, e quando viram vir um rapaz disse...:

— Ai, não é o teu filho?

E vai, e escondeu-se. (?) ela fez-se doente, fez-se muito mal. Fez-se doente:

— Ai! Estava desejando que tu viesses, que eu estou muito mal.

— Bem, então está aqui a banha da bicha. Agora lim..., lavas-te toda com, com a banha, e depois tu já te pões melhor.

Ela fez-se... Passou-se o tempo, e ela disse ao gigante:

— Tu tens que matar o meu filho!

— Ai isso é que eu não faço! Isso é que eu não faço.

Bem, e o que havia dela a pensar? Havia umas junqueiras em frente da casa, e ela disse ao, ao filho:

— Olha lá, quantas junqueiras eras tu capaz de arrancar, de mãos atadas atrás? Que tu és forte e era, era capaz... quantas, quantas junqueiras eras tu capaz de arrancar?

E ele disse:

— Para aí umas quarenta.

— Então vamos lá experimentar.

E o que é que ela faz? Ata as mãos do rapaz atrás, e o rapaz arrancou as junqueiras. E ela dizia assim:

— Arranca mais! Arranca mais!

E ele foi sempre a arrancar. O rapaz chegou a uma altura que já não podia, e disse-lhe assim:

— Agora quando eu morrer, tu partes-me em quatro quartos e pões em cima do meu cavalo, e deixa o cavalo andar.

E ela isso fez. Cortou o rapaz, pôs em cima do cavalo. Quando o rapaz ia a meio do caminho, os sinos começaram a dobrar muito, muito. E o, o velhote disse assim:

— Ai, aí vem o João. Aí vem o João.

Eles, então, foram... quando o cavalo chegou, viram que o rapaz que vinha ali morto, em quatro quartos, e estenderam-no em cima de uma mesa, e... e lavaram-no, e... lavaram-no com o limão. O rapaz respirou. Depois, lavaram-no com a água. Ele já... já pôs-se melhorzinho. Depois, untaram-no com a banha da cobra e o rapaz recuperou os sentidos. Foi para a cama muito mal, claro, que era assim mesmo, e a rapariga é que tratava dele. Até que o rapaz se pôs melhorzinho, e

(— A rapariga da estalagem?

— A rapariga da estalagem.)

Diz a rapariga:... Depois diz ele assim:

— Eu vou correr mundo.

Diz ela assim:

— Não, tu não estás capaz de ir correr mundo. Olha, toma lá, estão aqui duas bolas: uma é para ti, outra é para mim. Se a tua for mais longe que à minha, e desaparecer é que estás bom; se não, a minha fica ali, e a tua logo se vê. Bem, lá foram para uma janela, ela atirou a, a bola dela, e ficou ali. E ela, ele atirou a dele, e ficou um bocadinho mais longe.

— Vês, ainda não estás capaz. Ainda não estás capaz.

Bem, apesar do tempo (?), começa ele outra vez:

— Eu vou correr mundo.

— Não, tu ainda não estás capaz de correr mundo. Vamos lá outra vez com as bolas. Foram a jogar às bolas, a dela ficou no mesmo lugar, e a dele foi um bocadinho mais longe.

— Ainda não estás capaz. Ainda não estás bom.

O rapaz não sei quê...bem, ficou... apesar... daí a pouco tempo, começou ele a dizer:

— Eu vou correndo mundo.

— Não, tu ainda não estás capaz de ir correr mundo. Vamos lá experimentar outra vez. A dela ficou no mesmo lugar e a dele desapareceu, desapareceu, ele então já estava bom para ir correr mundo. E onde é que ele havia de ir? À terra onde ele nasceu, saber como se passava as coisas. Chegou, o rei já tinha morrido, e depois foi Ter com... com o irmão que era um gigante que já tinha comido o pai, já tinha comido várias pessoas, aquilo não havia ali ninguém, e ele disse assim:

— Ai, só faltavas tu! Só faltavas tu e a mãe. Então espera aí, toma lá um pandeiro, um pandeiro e tu vias tocando o pandeiro enquanto eu afio os meus dentinhos.

E depois dizia o gigante assim:

— Irmanito! Vai tocando o, o pandeiro, enquanto eu amolo os meus dentinhos.

Mas agora, depois apareceu um rato e disse assim:

— Olha, tu pões aqui o pandeiro no chão, e eu dou saltos em cima do pandeiro, o pandeiro toca, e tu foges.

E foi assim. O rapaz fugiu, mas na altura que ele fugiu o gigante vê, não o viu, toca a correr atrás dele, e então... ele tinha dito à rapariga quando ele, quando ele, quando ela visse os macacos estarem aflitos, que soltasse, porque no caminho dele andar para cá e para lá apanhou dois macacos, e então levou os macacos. Ora a rapariga viu os macacos muito aflitos, e soltou os macacos. Soltou os macacos, já ele estava, já o gigante estava quase em cima dele, ele ia de árvore para árvore, de árvore para árvore, e o gigante em cima dele, ele... ele deitava aquilo tudo abaixo. Quando aparecem os macacos, aparecem os macacos em cima dele. Depois fazia assim a um, e depois fazia assim a outro. E os macacos não o deixaram, enquanto o rapaz fugia. Depois que ele viu que o rapaz já estava ao longe, os macacos foram-se embora e ele ficou, e depois não sabia por onde o rapaz tinha ido. Afinal, depois ele chegou lá, a casa, e então trataram do casamento e eles ficaram muito felizes, tiveram muitos filhos, aí um quarteirão, e são felizes, e eu fui lá, não me deram nada. Deram-me uns sapatinhos de alcatrão, eu fui e vim, ficou-se ao chão. (Acabou-se).

 

Colectoras: Cláudia e Vanda Matias 1994, Olhão; informante: Otília de Deus

Classificação: AaTh 590 O Príncipe e as Braçadeiras

Imprimir Adicionar aos favoritos Enviar a um amigo

Send to a friend