História da Criada Preta

Era uma vez uma menina, que vivia muito contente com o pai e a mãe.

A certa altura a mãe morreu. E tinham uma criada preta. Mas a criada gostava muito do patrão. O que é que ela pensou? Que na altura tinha de fazer… aquilo só via era a filha, era o encanto dele, era a filha.

Bom, os anos foram-se passando e ela fez-se numa linda rapariga. E a preta cada vez tinha mais raiva à menina. A rapariga ia-se assomar… tinha uma nora, grande, de muita água, e ela ia-se assomar aí à sombra, mas a preta, entretanto: “Ela é tão, tão bonita, que a mais bonita sou eu? Sou eu, claro que sou!”

Entretanto, pensou arranjar uma patifaria. Pensou arranjar uma patifaria e, a certa altura, um dia, foi, resolveu que a ia pentear. A menina não gostava dela, mas deixou pentear.

Assim se foi passando. Volta e meia ela queria pentear. Depois ia-se assomar à água, à nora: “Eu sou tão bonita como ela! Claro que sou!”

A certa altura, espetou-lhe um alfinete na cabeça e a menina transformou-se numa pomba. Mas ela andava sempre rodeando por aí, sempre. Ia a casa, andava lá por dentro de casa, ia, ia para a nora e então quando a via, a preta, ir-se assomar à nora, [a pomba] dizia-lhe assim:

Preta negra e torta,

Que me fazes andar pela horta!

Preta negra e torta,

Que me fazes andar pela horta!

Bom, isto passou e o pai queria saber da filha, que já estava muito preocupado:

— Mas então, e a menina?

— Não sei de nada, ela… não sei, desapareceu, não sei, desapareceu!

— Mas que linda pombinha que anda aí! Já a viste ao pé?

— Ela não deixa apanhar!

Ela deixava mexer pelo pai. E depois começou, continuou a dizer. Quando a via sózinha lá na nora, dizia-lhe:

Preta negra e torta,

Que me fazes andar pela horta!

A certa altura o rapaz, o pai (era um rapaz, era novo), tentou apanhá-la e ela deixou apanhar. E daí começou-lhe a fazer festas, e ela começou-se a habituar a ele, pois era o pai; dele não tinha medo.

Agora, preta, assim que a via em casa, escorraçava-a e ela continuava cantando, até que um dia ele foi, foi à nora e ouviu aquela cantiga:

Preta negra e torta,

Que me fazes andar pela horta!

Bem, ele não sabia como era. Continuou a apanhar a pomba e até que um dia apanhou-a, começou-lhe a esfregar a cabecinha e a fazer-lhe festas e encontra o alfinete. Puxou e transformou-se a rapariga, e então ela contou-lhe: quem lhe tinha feito aquilo era a preta.

A preta foi logo para a rua e eles ficaram felizes. Foi isso.

 

Colectora, Denise Rafaela Carvalho 1998, Moncarapacho; informante, Feliciana da Conceição.

Classificação: AaTh 408, *As Três Cidras do Amor (As Três Laranjas)

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