Revista ELO 9 / 10

Index

La Tradición Oral en el Antiguo Testamento. Aproximación al Legado de los Patriarcas, Julio Camarena Laucirica

A estética discursiva nos contos da literatura oral mirandesa: uma abordagem estatístico-pragmática, António Bárbolo Alves

La Cadena De Transmisión Mediacional En Una Leyenda Contemporánea: El Caso De Las Vacas Mutiladas Como Metáfora De La Crisis Argentina Actual, Martha Blache, Silvia. Balzano

Telling the Images. Experiences of Visualisation in the Storytelling Performances of Kyrgyz Manaschi, Sally Pomme Clayton

A Lenda do Rei Bamba, Isabel Dias

Verónica, la virgen del espejo y las tijeras. Leyendas etiológicas y rituales de evocación (II), Alejandro Arturo González Terriza

Parejas de Personajes en Cuentos Populares Españoles, Antonio Moreno Verdulla

A Expansão na Literatura Oral, Bráulio do Nascimento

Imágenes de la Mujer en los Proverbios Bánsoa del Oeste de Camerún, Céline Magnéché Ndé

Cantiga ao desafio e estetização da fala: natureza, modalidades, funções, Carlos Nogueira

El Romancero de La Yesa: Un Ejemplo del Romancero Valenciano, Amparo Rico Beltrán

Un Parent Pauvre de la Littérature Orale - Réflexions sur le conte facétieux, Michèle Simonsen

Anthropological View of Folklore, Marija Stanonik


Resumos

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La Tradición Oral en el Antiguo Testamento. Aproximación al Legado de los Patriarcas

Julio Camarena Laucirica

Há muito que, graças a diversos investigadores (Frazer, Gaster, Patai, etc.), se sabe ter o texto da Bíblia chegado até nós cheio de episódios e motivos que aparecem também nas epopeias de outros povos vizinhos de Israel (o Grande Dilúvio, o menino no cestinho de vime, a Torre de Babel...), todas elas, em geral, anteriores à narrativa bíblica.

Mas, deixando de lado a questão das datas e fontes do Pentateuco, assim como da sua relação com as epopeias limítrofes, é possível verificar também que existem episódios que estão, ao mesmo tempo, na Bíblia e na literatura oral moderna e, além disso, que certas passagens bíblicas aproveitaram sequências narrativas que existiam previamente na tradição oral, antes de passarem ao texto escrito. Esta incorporação efectuou-se não de forma inócua, mas sim de acordo com determinada função: validar e justificar origens e actuações. Mostrar este facto é o objectivo do presente artigo (o primeiro duma prevista série de três), em que tratamos sobretudo do episódio de Judá e Tamar (Gén. 38).

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A estética discursiva nos contos da literatura oral mirandesa: uma abordagem estatístico-pragmática

António Bárbolo Alves

 

Neste artigo, pretendo destacar a forma como o discurso dos contos da literatura oral obedece a regras e leis que podem ser medidas e verificadas.Para tal, analisarei três narrativas, em língua mirandesa, recolhidas na Terra de Miranda onde este idioma é falado. Em seguida, procederei à descrição da sua estrutura, assim como à trajectória e organização discursiva, que sobressai para além da aparente simplicidade e desorganização.

Na primeira parte, de carácter empírico, descreverei algumas particularidades desta região, reflectindo sobre o papel dos contos da literatura oral na construção da identidade mirandesa. Na segunda, de âmbito estatístico, será feita a análise dos dados lexicais, textuais e discursivos.

O método de trabalho baseia-se na estatística paramétrica. Esta análise é confrontada com os dados teóricos que acompanham, corroboram ou contestam, os dados estatísticos. O estudo completa-se com a apresentação dos textos e das ecografias lexicais de cada conto.

 

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La Cadena De Transmisión Mediacional En Una Leyenda Contemporánea: El Caso De Las Vacas Mutiladas Como Metáfora De La Crisis Argentina Actual

Martha Blache, Silvia. Balzano

Em meados de Maio de 2002, os jornais e a televisão foram dando conta dum fenómeno de estranhas características acontecido na Argentina, na região das pampas: a aparição de uma centena de vacas mutiladas. As primeiras notícias, chegadas através dos proprietários das fazendas, sublinhavam a ausência de indícios que revelassem a intervenção de predadores, a falta de resistência das vacas ao ataque e a ausência de pegadas à volta do animal morto. Por outro lado, os cortes realizados no corpo dos animais eram tão perfeitos que os factos foram classificados como "misteriosos" pelos meios de comunicação, os quais implicitamente aludiam a uma personagem lendária, o Chupacabras, como sendo o causador de tais mutilações.

Os folcloristas têm demonstrado que as lendas contemporâneas surgem a partir de situações que reflectem uma preocupação social existente na consciência do grupo, e, além disso, que a transmissão oral e a transmissão pelos meios de comunicação se influenciam mutuamente. A informação que usámos como base deste artigo foi extraída de jornais locais e de grupos de discussão existentes na Internet. A análise dos dados segue as linhas traçadas por Richard Bauman no seu trabalho sobre a performance mediacional, o que nos permitiu determinar os papéis dos diferentes transmissores intervenientes no processo mediacional da lenda do Chupacabras.

O artigo termina com uma série de hipóteses explicativas, segundo as quais o motivo pelo qual esta lenda adquiriu tanta força na Argentina pode estar no seu poder para evocar, de forma sintética, as situações conflituosas que o nosso país neste momento atravessa.

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Telling the Images. Experiences of Visualisation in the Storytelling Performances of Kyrgyz Manaschi

Sally Pomme Clayton

Criar imagens é central na experiência de contar histórias. Este artigo considera modos como as imagens se tornam presentes quando as histórias são contadas. Discutem-se experiências de visualização com os Manaschis do Quirguizisistão que narram a épica Manas. O processo de visualização durante as recitações parece estar relacionado com o descrever imagens mais do que com o lembrar palavras. O acto físico de encarnar a história no espaço da recitação conjura a história, transportando dentro dela os Manaschis contidos na épica. A imaginação da audiência e da comunidade mais vasta combinam-se para fazerem com que Manas, o herói, apareça.

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A Lenda do Rei Bamba

Isabel Dias

A lenda do rei Bamba fez parte da tradição historiográfica peninsular da Idade Média. Foi primeiramente transmitida pelo Libro de las Generaciones (1260-1270), de origem navarra, e, a partir de um testemunho desta fonte, pela primeira redacção da Crónica Geral de Espanha de 1344, de onde passou à refundição da mesma crónica, datada de c. 1400. Entre as três versões existem algumas diferenças significativas, resultantes dos contextos específicos de produção e do processo de composição narrativa, assente no cruzamento de fontes histórico-literárias. A história lendária do lavrador Bamba, ungido rei dos Godos, por vontade divina, destacou da galeria das personagens históricas da monarquia visigótica uma figura a que já a historiografia antiga, desde o séc. VII (Julião de Toledo, Historia Wambae) ao séc. XIII (Lucas de Tuy, Chronicon Mundi; Rodrigo de Toledo, Historia de Rebus Hispaniae), dera especial relevo. A lenda retomou motivos bíblicos, bem como imagens e psicotemas da literatura peninsular, que foram transmitidos por autores árabes e moçárabes.

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Verónica, la virgen del espejo y las tijeras. Leyendas etiológicas y rituales de evocación (II)

Alejandro Arturo González Terriza

A primeira parte deste artigo foi publicada no número anterior (nº 7/8) da E. L. O. Nesta segunda parte, são examinados vários testemunhos (na sua maioria inéditos) sobre a evocação de um espírito feminino dos espelhos, chamado Verónica na literatura oral espanhola. A análise revela a existência de cinco variantes do ritual: a simples enunciação do nome do espectro; a evocação por meio de uma tesoura e um livro (geralmente, a Bíblia); por meio de um espelho; por meio de tesoura e espelho; ou por meio de tesoura, livro e espelho. O estudo examina a relação deste ritual com as lendas etiológicas analisadas na primeira parte do artigo, assim como a finalidade do rito. Por fim, propõe-se uma interpretação de Verónica como símbolo da passagem da infância à adolescência através da menarca e da primeira experiência sexual.

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Parejas de Personajes en Cuentos Populares Españoles

Antonio Moreno Verdulla

Estudaram-se os contos da colectânea de Aurelio M. Espinosa (pai) Cuentos Populares Españoles, e organizaram-se as personagens, agrupando-as em pares, de acordo com a relação beneficiário-adversário e as diferentes actuações dos aliados. Reconheceu-se a existência de quatro pares, correspondendo o primeiro deles aos contos do universo maravilhoso e os três restantes aos contos do universo reconhecido.

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A Expansão na Literatura Oral

Bráulio do Nascimento

O estudo da expansão na literatura oral amplia o conhecimento dos mecanismos de transmissão e reprodução dos contos populares e dos romances tradicionais, além de relevantes informações culturais que apresenta.

A natureza canônica ou sagrada do número três em diferentes culturas, que levou Axel Olrik a formular a "lei dos três" na literatura oral, constitui-se em elemento básico para a conceituação da expansão na área.

Adotamos um conceito operacional, caracterizando a expansão como uma macroestrutura constituída por mais de três elementos ou sequências semanticamente diferentes, integrados pelo mesmo sema. Desse modo, dispõe o analista de um instrumento objetivo para o estudo da narrativa, tanto no conto popular como no romance tradicional.

Através da análise do conto de Brancaflor (AT 313) e dos romances da Donzela Guerreira (CGR 0231) e o Regresso do Marido (CGR 0113), enfatizamos enfatiza a relevância da expansão para o estudo da literatura oral.

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Imágenes de la Mujer en los Proverbios Bánsoa del Oeste de Camerún

Céline Magnéché Ndé

Através do exame dos provérbios da língua nguema/bansoa (Oeste dos Camarões), este artigo tenta demonstrar que o machismo e a misoginia se mantêm na região.

Houve, é verdade, a vaga do feminismo radical dos anos 60 e 70 do séc. XX, que levou à a correcção de algumas das piores discriminações contra as mulheres e à conquista de certos direitos: as mulheres vão hoje à escola, jogam futebol, ocupam perto de metade dos lugares nas faculdades de Direito ou Medicina, cerca de ¼ das pequenas empresas é dirigido por mulheres, estas conduzem autocarros, dirigem bares, estão presentes no clero e nas forças armadas, antes bastiões dos homens. No entanto, o machismo e a misoginia perduram e manifestam-se, não só nos comportamentos e decisões, no desporto, no cinema, na política, etc., mas também —e sobretudo— na fala, no discurso quotidiano, que contribui para reforçar de maneira insidiosa e eficaz os estereótipos discriminatórios contra as mulheres.

Os provérbios do povo bansoa são uma boa prova desta realidade. Na verdade, mais do que qualquer outro facto, os provérbios prendem a mulher bansoa num discurso que a reconhece apenas enquanto sujeito doméstico, reprodutora, objecto de prazer, prostituta e pessoa submetida, e negam-lhe totalmente a inteligência e a capacidade de pensar, de agir pela sua própria cabeça. Trata-se dum discurso que se transmite de geração em geração, com todo o cuidado, porque justifica todos os arcaísmos e serve de base a todas as discriminações de que a mulher bansoa é vítima.

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Cantiga ao desafio e estetização da fala: natureza, modalidades, funções

Carlos Nogueira

Propõe-se neste artigo uma teoria da cantiga ao desafio portuguesa quer no plano individual, enquanto acto criativo pessoal, quer no plano comunitário, equacionando o fenómeno como processo sociocultural. A interdisciplinaridade multivectorial do enfoque evidencia a complexidade de uma especificidade poético-musical que não se esgota em componentes técnico-literárias e musicais. Exercício lúdico-inventivo com muito de antropológico e sociológico, poesia em acção, o desafio concretiza-se como macropoema dialógico constituído por dois poemas orais individuais que se cruzam numa alternância de forças, tensões e distensões variáveis. A dimensão textual é a materialidade mais visível de uma orgânica que obedece a leis de improvisação em que participam elementos linguístico-literários (arte poética, gramática, retórica, estilística, temas e remas), mas também factores extratextuais com os quais os contendores interagem de forma muito estreita (a audiência e o aparato tecnológico que envolve algumas actuações, com vista à sua mediatização).

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El Romancero de La Yesa: Un Ejemplo del Romancero Valenciano

Amparo Rico Beltrán

Da existência —e subsistência— do romanceiro da tradição oral na província de Valência (Espanha) apenas tínhamos notícia através de estudos realizados com critérios sobretudo musicais, tendo em vista a constituição de um arquivo de canções populares, onde, claro, também encontrámos romances. Mas o objectivo de tais recolhas não era dar conta do reportório romancístico da província e, provavelmente, os textos recitados foram postos de lado (Beltrán, 2001).

O presente artigo pretende: (1) dar notícia da recolha realizada (agora sim, com a intenção de procurar romances) em 1980, em La Yesa, aldeia do interior da província; (2) apresentar o método que, tendo em conta o meu trabalho ao longo destes anos, considero o mais apropriado para a recolha de romances na zona em questão; (3) dar a conhecer o reportório desta província (os romances mais correntes e alguns mais raros) e a existência de informantes com grande saber romancístico.

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Un Parent Pauvre de la Littérature Orale - Réflexions sur le conte facétieux

Michèle Simonsen

Se bem que mais numerosos do que os contos maravilhosos, os contos jocosos são bem menos estimados e bem menos estudados. No entanto desempenham um papel tão importante como os outros na vida da comunidade. As suas funções são múltiplas: reflectem conflitos de classes e rebaixam exacerbadamente os poderosos desse seu mundo; encenam uma transgressão imaginária das diferenças sexuais mas afirmam a sua necessidade; estigmatizam a parvoíce e reflectem sobre a inteligência humana; parodiam os contos maravilhosos, jogam ludicamente com o real, o absurdo e a ideia dum “mundo às avessas”.

Bien que beaucoup plus nombreux que les contes merveilleux, les contes facétieux sont bien moins estimés et bien moins étudiés. Ils jouent pourtant un rôle tout aussi important dans la communauté. Leurs fonctions sont multiples: dérision exacerbée des puissants de ce monde; transgression imaginaire des différences sexuelles mais affirmation de leur nécessité; stigmatisation de la bêtise et méditation sur l’intelligence humaine; parodie de contes merveilleux; jeu ludique avec le réel, l’absurde et l’idée d’un “monde à l’envers”.

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Anthropological View of Folklore

Marija Stanonik

O folclore literário (i.e., literatura oral) é, em ponto pequeno, o que a antropologia cultural é em grande. De facto, é fulcral para ambas a polivalência do seu objecto — o homem.

É a partir da nova folclorística americana que os níveis de texto e contexto passaram a estar inevitavelmente ligados ao texto. Desde então que ambos os níveis têm vindo a criar em conjunto um evento folclórico e uma categoria do homem no folclore literário que é inevitável. Devido ao seu lugar tanto nas ciências filológicas como nas ciências sociais, o folclore literário entende a sua missão numa confluência de métodos de ambas as áreas.

A antropologia cultural não é só um outro nome para etnologia, nem é idêntica a ela em termos de conteúdo. É um termo mais abrangente, talvez apto a incluir a etnologia, a folclorística e outras áreas científicas afins. Esta vasta concepção de antropologia cultural é evidentemente mais interdisciplinar do que a ciência folclorística.

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