A Lenda da Bicha das Casas Pintadas

Bicha de Sete Cabeças

Há muitos, muitos anos, tantos que a memória não retém o número, em Évora reinava a confusão e a morte. Os chefes da cidade não sabiam o que fazer. Queixavam-se as pessoas que o génio do mal andava à solta. Face a esta opinião generalizada, sem meios para debelar o mal-estar geral, resolveram os chefes religiosos erigir um templo a uma divindade do bem. E assim fizeram. É esta a origem do templo de Diana.
Tem este templo a meio um orifício. Por ele entrou o espírito do mal na forma duma serpente e lá se manteve até que o templo, pela malvadez e vontade de poder exacerbada duns e doutros foi destruído e ficou em ruínas.
De novo o mal-estar voltou, e a confusão e a inquietude tomaram conta da sociedade. Que fazer?
À similitude dos seus avoengos, para conter a malvadez da besta que em si continha o espírito do mal, resolveram os chefes religiosos construir um templo dedicado à mãe de Deus. E assim surgiu a Sé que conteve o espírito do mal pelo sinal-da-cruz.
Durante séculos a paz reinou, até que no séc. XV voltou a inquietação à cidade. Para prender o espírito do mal, resolveram as autoridades espirituais da terra encomendarem uma pintura mural para que ali ficasse presa. Assim surgiram as Casas Pintadas. Outra vez, a paz voltou à cidade. Mas agora a usura do tempo tomou conta dos mistérios nos frescos, e o espírito do mal voltou a soltar-se, e a inquietação voltou a reinar entre nós.
Que irão fazer as autoridades que nos governam das pinturas que durante séculos prenderam no seu mistério o génio do mal que voltou a corroer-nos?

 

Informação recolhida em Évora pela antropóloga Maria Joana Krom

Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas da Terra e do Mar, Lisboa, Apenas Livros, 2004, p.208

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