Papai! A perdiz queima-se!

Era uma vez uma rapariga que lhe morreu a mãe e ela ficou sozinha com o pai. O pai queria merter-se com ela, ela não consentiu e fugiu de casa. Foi-se embora. Foi servir para a casa se um rei, de um príncipe. Ela era uma cara linda, o príncipe engraçou com ela e casou com ela. E o príncipe foi para fora com umas tropas para o estrangeiro e ela ficou grávida a viver com a sogra. Mais tarde adoeceu para ter o bebé. Teve um menino! Mandou uma carta dizendo que já cá tinha um menino. O empregado trazia as cartas que o marido mandava. Esse empregado foi pela casa do pai dela que tinha uma venda e ele perguntou-lhe:

— O que é que vai fazer? – e ele contou-lhe que ia levar uma carta da senhora do príncipe que já cá tinha um menino. Mas ele não sabia que era o pai dela. Aí ele trocou-lhe a carta sem o empregado saber fez outra dizendo tudo do pior: que ela já cá tinha tido um cão. O pai dela disse-lhe:

— À volta venha por aqui outra vez.

Mandou-lhe a carta e o marido deu-lhe de resposta:” São coisas que Deus manda. O que é que se há-de fazer! Temos de ter paciência”. Bom, ele foi apanhou a carta da mão do empregado e escreveu uma carta mandando dizer que a tinham de mandar matar antes de ele vir. Bom, nisto a sogra recebeu a carta , mas não lhe queria dizer nada. Só chorava, só chorava. Foi...foi que descobriu à nora que ele tinha dito isto assim...assim na carta. Diz a sogra assim (mandou chamar dois homens):

— Vão levá-la a ela e ao menino para longe!

Lá foram com ela e o menino. Vai um dos que ia com ela e cortou-lhe as manitas dela. Vai outro e diz assim:

— Isso não se faz!

Ela queria pegar no menino, vai um e diz assim:

— Damos-te um bocado de tecido e pões o menino às costas.

Chegou a um certo sítio estava uma fontinha linda e ela ia morta de sede, mas não podia beber porque não se podia abaixar senão o menino caía (porque ele ia às costas). Nisto estava uma velhotinha ao pé, diz ela assim:

— Oh minha senhora, dê-me lá um copinho de água! – diz ela assim:

— A senhora bebe de bruços!

— Não porque o meu menino cai para dentro de água!

— Não cai não! Se cair logo se tira! – ela foi, abaixou-se , bebeu e ai o menino caiu para dentro de água, diz ela assim:

— Tire lá o meu menino que eu não posso!

— Tire lá a senhora!

Ela não tinha manitas, mas tinha bracinhos. Foi tirar o menino saiu logo com as manitas boas de dentro de água. Era a Nossa Senhora! Bom, ficou com as manitas boas e disse-lhe assim a Nossa Senhora:

— Tu agora onde vais?

— Eu vou correr mundo com o meu filhinho porque o meu marido mandou dizer numa carta para me matarem. Não sei porquê! – e a Nossa Senhora disse-lhe assim:

— A senhora agora vai para uma casa que está além assim...assim naquela serra.

A casa era do marido, onde ele ia assar as perdizes quando ia à caça.

— A senhora vai para além, cria lá o seu menino e não lhe há-de faltar nada, há-de aparecer de tudo.

— E o que é que eu dou ao meu menino?

— Não há-de faltar além nada!

Bom, era a Nossa Senhora. Ela foi para além para aquela casinha, sozinha criando o menino. Ao fim de tempos o menino já andava e já falava. O marido veio de lá de onde estava e perguntou à mãe o que era feito da mulher. A mãe contou-lhe e ele mandou chamar esses homens que a mãe tinha mandado com ela. E um disse:

— Aquele cortou-lhe as mãos! E eu fiz-lhe uma taleguinha [taleigo: saco estreito e comprido] e pus-lhe o menino às costas.

Ele correu tudo, por todo o lado e dela ninguém dava notícias.

— A esta hora já morreu ela e o menino. – dizia o príncipe.

Mais tarde, o menino já andava, já falava, já corria tudo. Um belo dia vai o príncipe à caça mais uma data de colegas, diz ele assim (via a roupa estendida lá na casa):

— Mas está além roupa estendida! Oh fulano, vai lá além com esta perdiz. Vai lá assá-la e vês quem está além. Aquela casa é minha (ficava assim numas brenhas de uma serra).

O colega foi, lá esteve e o menino andava a brincar, quando voltou trazia a perdiz toda queimada. Diz o príncipe assim:

— Oh homem! Mas trazes a perdiz toda queimada.

— Se for outro ainda há-de trazer mais queimada. Está além um menino mais lindo ainda não vi! Ai, dá tantos ares ao senhor príncipe! – ele ficou-se.

E o príncipe disse assim:

— Então e essa senhora tinha as manitas dela?

— Tinha sim. Até estava a fazer renda.

— Então não é a minha senhora.

Por todo o lado a procurava com saudades de a ver. Bom, mandou outro militar.

— Vai lá assar a perdiz. Vê lá bem se vens contando o mesmo que este militar contou!

Lá foi assar a perdiz. O menino brincava com ele, punha-se ao colo, brincava com ele e ele estava encantado com o menino. Nisto deixou queimar a perdiz toda também. Lá veio com a perdiz, diz ele assim:

— Mas tu trazes a perdiz toda queimada também! — diz ele assim :

— Oh senhor rei, o menino encanta a gente: diz tudo fala com a gente, vai para o pé da gente, pergunta tudo... – diz ele assim:

— Pois agora vou eu! – Disse o príncipe e lembrou-se de perguntar se ela tinha manitas. Disse-lhe que tinha.

Bom, foi. Ela viu vir e disse assim:

— Filho, agora vem aí o teu pai. Aquele senhor que vem aí é o teu pai! Quando ele tiver a perdizinha no forno a assar tu vais ao pé dele, o meu filho bate-lhe na perna e dizes-lhe: “Papai, a perdiz queima-se!”.

Bom, ele olhava para ela “É ela!”, mas olhava via-lhe as manitas perfeitas e um menino tão lindo...mas os outros todos diziam que era mesmo a cara do senhor príncipe. Ele não dizia nada e ela tinha medo que ele a matasse, porque não sabia como as coisas eram. Era tudo injustamente. Nisto lá esteve assando a perdiz, mas olhava para o menino. Depois tinha a perdiz no fogo, vai o menino ao pé dele, bateu-lhe com as manitas na perna e diz-lhe:

— Papai, a perdiz queima-se! – e ele respondeu-lhe e disse-lhe assim:

— Ai, se tu fosses o meu filho que dita seria a tua mais a minha!

Foi então que ela disse:

— Então não é o teu filho, que tu mandaste matar e a mim também!?! Mandaste matar a ele e mandaste matar a mim!

Foi então que ele descobriu tudo como era e como não era. Que tinha sido assim...assim...coisas do pai dela...veio a saber disso tudo. Mandou chamar esse das cartas e depois mandou matar o pai dela e esse que lhe tinha cortado as manitas.

E pronto! Trouxe o menino para a casa dele mais a senhora. Ainda esta manhã lá estavam!

 

Colectora: Cidália Bicho 2000, Cachopo; informante: Maria Custódia

Classificação: AaTh 706, A Rapariga sem Mãos

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