O Menino da Burra

Era um menino que morreu os pais e foi criado com a avó. Mas a avó não tinha ama para o criar nem tinha providências para o manter, e então o que é que ela fez?... tinha uma burra que ‘tava também a criar um burrinho pequenino e habituou o neto a mamar na burra e o mocito criou-se com o leite de burra. E quando já estava um grande homem, a avó morreu. E como a avó morreu, ele ficou sozinho e um dia pôs-se a pensar : — Então mas eu agora ... os meus pais morreram, a minha avó morreu, agora estou p’raqui sozinho, o que é que eu faço sozinho?... Eu vou correr mundo! E então lá abalou a correr mundo.

Quando chega lá a um sítio, andava um homem a lavrar com uns bois e chegando ao pé dele diz-lhe assim : — Ó amigo! Você não me ensina onde é que é tal sítio?.

E ele agarra além nos bois e no arado e naquilo tudo, e fez assim com uma mão:

— Olhe, se fôr por aqui vai lá dar, se fôr por aqui também vai lá ter!.

E ele disse assim: — É pá... eu considero-me um homem valente, mas este aqui é muito mais valente do que eu!». E diz assim: — Oiça lá, eu ando a correr mundo, você não quer vir comigo?

—Você anda a correr mundo?

—Ando!.

— Então eu vou consigo!.

E lá abalaram os dois, a correr mundo.

Chegaram lá muito à frente e andava um a arrancar pinheiros. (...)

— Ó amigo! Você não ensina a gente? A gente quer ir para tal terra, você não ajuda onde é que a gente há-de ir?.

Ele vai além, começa a arrancar os pinheiros assim só com uma mão e vai a agarrar num pinheiro e disse:

—Olhe, se fôr por ali vai lá ter, se fôr por ali também vai lá ter!.

E disse assim: — Olha, Eh pá! Temos aqui outro valente! Olha lá! A arrancar pinheiros só com uma mão! A gente leva também este! .

—Olhe lá, a gente anda a corre mundo, você não quer vir connosco?.

— Quero pois!.

E abalaram todos três.

Chegaram então lá muito à frente e andava um a arrancar mato já há um ano, tinha um grande monte de mato, e eles disseram assim:

— Ó senhor! O senhor não ensina a gente? A gente quer ir para tal terra, o senhor não ensina a gente?.

Ele vai ali, espeta o forcado no mato todo, levanta-o no ar e diz assim:

—Olhe, se fôr por aqui vai lá ter, se fôr por aquele também vai lá ter!.

— É pá! Temos aqui outro valente! A gente vai também levá-lo!.

— Olhe lá, a gente anda aqui a correr mundo, o senhor não que ir connosco?.

— Vou pois, vamos todos!.

E abalaram todos quatro foram correr mundo.

Foram andando, andando, já iam muito cansadinhos, já iam todos torpados das pernas, já tinham andado muito, e chegaram lá a um certo sítio para descansar, puseram-se assim a admirar a paisagem. E começaram a ver ao longe uma coisa branca:

— É pá, além passa-se qualquer coisa! Além é um monte!

E dirigiram-se todos para aquele monte.

Chegaram lá e era um lindo palácio sem ninguém lá dentro!

— Olha! Temos aqui um palácio para nós estarmos aqui uns tempos! .

Começaram a espreitar aquilo, havia lá casa mas não havia ninguém. E diz assim o da burra:

— Bom, a gente agora com certeza que vai ficar aqui instalados, e agora sabes o que é que a gente faz? Fica sempre aqui um, porque a gente agora não tem comida, faz comida... qual é o que quer ficar?.

Diz logo assim o dos bois:

— Ah! Sou eu! Fui o primeiro que tu achaste, sou eu!.

Lá ficou. Eles foram à caça buscar coisas para comer. E quando ele já tinha tudo preparado, aparece o diabo. E diz ele assim:

— Ah! Estás aí com a mesa posta? Então espera aí!.

Começou de espaderada com ele, meteu-o ali p’ra um canto, comeu aquilo tudo e é o diabo, ó que aí vai ! Foi-se embora.

Chegaram os outros, ‘tava ele ainda muito doente a uma canto, e comida nada. E depois ele contou:

— Pois ah ... eu tinha aqui tudo pronto, mas entrou aqui um, entrou e bateu-me, foi-se embora ...(não sei quê, não sei quê...).

Diz assim o da burra:

—Olha! Eu a pensar que trazia aqui homens valentes! Deixaste-te ir abaixo! Ó ‘pois ele bateu-me .

Diz logo assim o dos pinheiros:

—Amanhã fico eu, vamos ver se não está tudo em ordem!». E assim foi.

No outro dia chegou o dos pinheiros, ora aconteceu-lhe precisamente a mesma coisa! Ele entrou, espadeirou, ficou ali a um canto, e a comida desapareceu, porque veio o diabo comeu tudo e foi-se embora. E os outros, quando chegaram a casa, estava também doente e a mesma coisa.

O último foi então o do mato:

— Ah! Mas amanhã fico eu! Vais ver se amanhã não está tudo em ordem!.

Aconteceu precisamente a mesma coisa. O da burra pôs-se a olhar para ele e diz assim:

—Sim senhora! Pensava eu que trazia aqui três homens valentes e no fim vocês não prestam p’ra nada! Amanhã quem cá fica sou eu, vamos lá ver se não está tudo em ordem quando vocês aí vêm!.

E assim foi. Eles abalaram, foram à caça buscar mais comida (o diabo é que comia tudo!). No outro dia o da burra meteu-se ali assim atrás da porta, o diabo vem a entrar ali (o diabo tinha uns corninhos, por isso é que diziam que era o diabo), e então quando ele vai além a entrar, ele puxa uma espada, Trás! Corta-lhe uma orelha!

Ora o diabo assim que se apanhou sem a orelha, abalou a fugir, e quando os outros vieram, estava a mesa toda posta, ‘tava a comida feita e ele todo contente!

Diz ele assim:

— Afinal de contas o valente sou eu! Vocês ficaram cá todos três, ninguém deu conta daquilo! E vê lá se eu dei conta ou não dei!.

— Ah! O que é que tu fizeste?.

— Ah! Isso agora não interessa! Pronto, têm aqui a comidinha, agora come-se, e amanhã ou vamos todos ou fico eu aqui outra vez, porque vocês não vale a pena!.

Bom, acabaram de comer, da varanda começaram a olhar assim os campos, e assim muito ao longe bem longe começaram a ver um fumo muito negro a sair, e disse assim o da burra :

—É pá! Olha além há novidade! Aquilo ou é fogo... mas aquilo é um fumo tão negro! Olha, isto acabou-se! Agora temos aqui uns dias, e agora vamos descobrir mais!.

E lá marcharam. Fartaram-se de andar, que aquilo era muito longe, e quando lá chegaram já iam um bocado abatidos, mas lá se recuperaram. E quando lá chegaram viram um fumo a sair de dentro de um poço :

— Isto, é pá! Fumo a sair de dentro de um poço? Isto é mistério! O que é que se passa aqui?.

Ataram ali umas cordas, uma espécie de um cesto, e o dos bois disse assim :

— Primeiro sou eu! (e levava uma campainha e disse:) — Mas quando eu tocar a campainha vocês tiram-me para fora, que é porque eu não posso ir p’ra baixo!.

E assim foi. Mete-se lá, e quando chegou lá muito ao fundo já via só teias de aranha e mosquitos... e tocou a campainha, vá cá p’ra cima!

E depois foi o dos pinheiros. Aconteceu-lhe a mesma coisa.

Depois foi o outro (o do mato) e aconteceu a mesma coisa a todos três: chegava àquele ponto já não podia ir para baixo, tocavam a campainha que eles levavam e vinham para cima.

E diz o da burra assim:

—Mais uma vez vocês falharam! Então quer dizer que nenhum é capaz de lá ir dizer o que é que se passa em baixo? Eu vou! Vocês tocam a campainha para virem para fora e eu toco a campainha para ir para baixo! Enquanto vocês ouvirem a campainha, deixem-me ir para baixo! Não me tirem. Deixem-me ir para baixo

E assim foi. O homem chega lá, aquilo assintou, eles viram que aquilo tinha assintado, ficaram à espera.

Chega lá e encontra-se num palácio tão lindo, tão lindo, tão lindo! Tudo o que lá estava era lindo, e com portas com fechaduras d’ouro, tudo uma coisa linda, linda, linda! Mas não se via ninguém! E ele assim:

— Mas então o que é que se passa aqui?. Abre uma porta e encontra-se com uma menina linda, linda! Assim que o viu disse:

—Ai! O senhor vá-se já embora que não pode aqui ficar. Lá vem o meu encanto e mata-o!

— Ó menina, diga-me, o que é o seu encanto?:

—Ah! O meu encanto é um boi bravo!.

— Ah, deixe-o comigo!.

Quando o boi ia a entrar ele dá-lhe uma espadeirada que lhe tira o pescoço p’ra fora. A menina ficou desencantada. Diz a menina assim:

—Ah! Muito obrigado! Há tantos anos que eu aqui estou!.

— Bom, e agora fica aqui, não se mexa, que eu a ver se descubro mais alguma coisa! Eram três manas que estavam lá encantadas mas elas não sabiam umas das outras. E então ela ali ficou, ela assim fez.

Chegou lá, abriu a outra porta, uma menina muito mais linda do que a outra! Que lindas meninas! E fez a mesma conversa:

—Ai senhor! Retire-se já daqui senão vem o meu encanto e depois mata-o logo!.

—Qual é o seu encanto, menina?.

—Ah! O meu encanto é uma jibóia muito má!.

— Ah sim? Não se preocupe! Deixe ‘tar aí quietinha!.

Foi então atrás da porta, quando a jibóia vai a passar ele vai com aquela espada, Trás!, traçou-a ao meio e a menina fica desencantada.

Vai ao pé dele, agradeceu, e ele disse:

— Não agradeça! Temos tempo! Deixe estar aí sossegadinha!

Que ele viu : “Já desencantei uma, já desencantei outra, pode haver mais!”

Ele aí vai ele, abre a outra porta, outra menina ainda mais bonita do que a primeira! Ah, que lindas meninas que ele viu!

Bom, ela fez a mesma conversa que as outras. Assim que o viu :

— Ai senhor! Faz favor, retire-se daqui, fuja daqui se não vem o meu encanto e mata-o logo!.

— Menina, diga-me lá o seu encanto?.

— O meu encanto é o diabo!.

— Ah foi o diabo? Então deixe ‘tar , deixe ‘tar aí sossegadinha, espere p’ra ver!.

E então quando vai além, o diabo vai a entrar e ele Zás!, corta-lhe a outra orelha, o diabo desapareceu logo!

Agora o problema dele! Vai juntar as meninas todas, e elas dizem que são todas três irmãs, que são filhas do rei, e depois que estavam ali já há muitos anos encantadas, porque as tinham encantado, não sei quê... E então ele disse assim:

— Pronto, agora vamos sair todos daqui!

Lá toca a campainha com muita força para eles ouvirem, mete uma menina dentro do cesto, alto ela cá para cima!

Bem, eles ficaram encantados! Uma menina tão linda! Diz ela assim:

—Ponham o cesto para baixo porque ainda há lá mais!.

Meteram o cesto para baixo, veio a outra menina, muito mais bonita do que a primeira! (Ele fez aquilo sempre com regras, a primeira que ele descobriu foi a que ele meteu). E depois veio a outra, todas três.

Agora ele deixou ficar aquilo lá em baixo para ver o que é que eles faziam. Começou a tocar a campainha, eles já não levavam aquilo para cima. E depois ele começou a pensar:

—Espera aí! Mas o que é que se passa aqui? Então agora foram três meninas para cima, eles são três, cada um tem a sua, e eles ali vão-me fazer a belheireta!.

Então, em vez de se meter a ele, arrabanhou p’ráli umas coisas pesadas, meteu-as dentro do cesto, tocou a campainha, eles puxaram o cesto para cima. Quando lhe parecia que o cesto já estava no meio, largaram aquilo tudo lá em baixo e ele caiu lá em baixo.

—Ora! Parece que adivinhava eu! Vejam lá, vejam lá!.

Bom, eles abalaram com cada uma das meninas, as meninas disseram que eram filhas do rei, e lá abalaram. E as meninas, com uma grande vontade de contarem que não tinha sido eles, e eles disseram:

—As meninas nunca contam que não fomos a gente que as descobrimos, se não a gente em qualquer altura pode matá-las!

E elas com muito medo, nunca descobriram.

Foram apresentados ao rei, o rei disse-lhes p’ra eles:

— Foram vocês que descobriram as minhas filhas, agora venham cá a fim dum ano... eu agora estou com saudades das minhas filhas, quero-me gozar delas. Ao fim dum ano venham cá porque cada um casa com a sua.

Eles abalaram todos contentes e elas lá ficaram, sempre pensando no rapaz que as tinha descoberto, mas não podiam dizer, que se não os outros iam e depois matavam-nas.

Agora ele, coitadinho, lá está no fundo do poço sem saber o que é que havia de fazer à vida dele, e de repente lembrou-se:

— Ai, vamos lá ver o que é que eu posso fazer....

‘Tava com estes pensamentos, apareceu o diabo:

— Dá-me as minhas orelhas!....

— Não te dou nada as tuas orelhas, some-te daqui! Não te quero ver! Põe-te daqui a mexer! Já basta a minha desgraça!.

O diabo apareceu outra vez :

— Dá-me as minhas orelhas!....

Ele então ali pensou : “Oh! Vou-lhe dar as orelhas se ele me tirar daqui p’ra fora!” E então disse ao diabo:

—Dou-te as tuas orelhas se tu me tirares daqui p’ra fora!.

— É p’ra já! Monta-te aqui em mim.

E então ele montou-se no diabo, ora, o diabo pôs-o cá fora num instante.

Ora, e depois, quando cá chegou, pronto, ficou outra vez na mesma desgraça, outra vez a dizer que não sabia o que é que havia de fazer à vida “No meio de tanta valentia, o meu destino agora é correr mundo!”

Lá começou a correr mundo, lá foi andando de terra em terra, perguntando aqui, perguntando ali, a ver se alguém dava notícias, três meninas... (não sei quê, não sei quê...), e ninguém sabia dizer nada. Foi andando até que lá chegou à terra onde estava o rei. E quando lá chegou, ‘tavam elas todas três à janela. Quando o viram, coitado, ia muito abatido, mas elas conheceram-no logo, e disseram :

— Ah manas! Ah, olha aquele rapaz é aquele que nos tirou do poço, aquele rapaz é que nos desencantou!

Foram logo a fugir chamar o pai, o pai veio e disse :

— Pai, a gente temos um segredo para lhe confessar! Aquele rapaz que está ali em baixo é que nos desencantou!.

E depois começaram a contar, o rei mandou logo entrar o senhor. Tiveram de conversa, estiveram a esclarecer as coisas e o rei disse assim:

— Com que então foi o senhor que desencantou as minhas filhas? E os outros é que ficavam na fama! Pois agora tenho aqui três filhas encantadoras. O senhor faz favor de escolher a que quer, que vai casar com ela. E os outros são aqui chamados na data prometida, e depois vamos ver o que é que vamos fazer.

E assim foi o rapaz. Depois, ‘tá claro, o rei deu-lhe logo a coroa, ficou logo o rei, e depois é que deu a sentença. Casou com uma delas, e depois ao fim apareceram os outros e eles disseram:

— Com que então foram vocês que desencantaram as minhas filhas? ‘Tá tudo esclarecido! Que eu já não sou o rei, o rei agora é este meu genro, e ele agora é que vai dar o castigo que vocês merecem!

E mandou-os matar.

[O rei disse então p’rá rainha : — Minha rainha, o que é que vamos fazer a estes três homens?.

E ela disse: — Manda-os matar, manda-os esfolar, e da pele deles mandas fazer um tapete para eu pôr os meus pés!.]*

E lá estarão então ainda a viver muito contentes até hoje.

 

* Aparece mais tarde na gravação

Colectora, Carmen Sabas 2001, Silves; informante, Maria da Assunção Laurinda

Classificação: AaTh 301 B O Homem Forte e os seus Companheiros: O herói cuja força tem origem animal, é superior aos seus companheiros de aptidões extraordinárias, vem a ser traído por eles nas aventuras em que desencanta três princesas.

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