História dos Porcos Espinhos

Era assim:

Havia uma vez uma mãe, que também queria ter um filho e depois, mais tarde, nasceu-lhe um filho, um rapaz maravilhoso. E então, o rapaz… Ah!, e ela, quando gostava de ter um filho, ouve uma voz e diz:

— Se tu quiseres ter um filho… Mas aos dezoito anos vai morrer enforcado!

E a mãe, com o desejo que tinha… E disse assim:

— Seja o que Deus quiser!…

Ela queria era ter um filho. Agarra, apareceu-lhe o filho. Cada vez que o filho fazia anos, para ela era um chorar. E o filho dizia assim.

— Mãe, então porque é que tu choras quando eu faço os anos, em lugar de estares contente?

E a mãe depois dizia assim.

— É com alegria, filho, é com alegria de saber que tu fazes os anos.

Bom, o tempo foi passando. Quando chegou aos dezoito anos, um dia, quando ele diz assim para a mãe:

— Ó mãe, eu vou correr o mundo.

E a mãe sabia o que é que se passava. E a mãe diz assim:

— Ó filho, então vais correr o mundo para quê?

— Eu vou correr o mundo, uma pessoa que estou aqui, eu quero correr mundo.

A mãe agarra, põe um alforchinho, como antigamente aí no Alentejo, põs-lhe comida, põs-lhe bolsinha, [um] num lado, outro noutro, e depois o rapaz foi andando. E onde viu umau uma luz lá longe, de noite, e ele foi, foi, foi, e aproximou-se ao pé daquela luz. Aproximou-se, era uma grande casa. Era uma grande casa. Depois bateu à porta, veio um lavrador:

— Então o senhor, o que é que anda fazendo?

— Eu ando correndo o mundo. Mas vinha pedir poisada, assim pra dormir.

Diz ele:

— Sim, senhor.

Bom, levaram-no para ao pé da lareira — aquilo era no Inverno -, e onde esse lavrador tinha uma filha, mas a filha ficou logo encantada no rapaz. E então ele, depois, andava à procura de posto de trabalho, e diz ele assim:

— Pois tu podes ficar aqui. Se quiseres ficar aqui, eu tenho falta de coiso [pastor]… Olha, tenho aí cabras para guardar, tenho ovelhas.

Diz ele:

— Então, está bem.

Mas, no outro dia, ele passou ao pé de uma igreja muito velhinha, os santos todos velhinhos, e a mãe tinha-lhe dado dinheiro, para ele se, quando tivesse falta, para comprar qualquer coisa. Ele agarrou, foi ao pé do altar:

— Toma lá.

Põs ao pé da santinha. Foi ao pé de outro altar, deu outra coroa:

— Toma lá.

Depois deu o dinheirinho todo. Quando voltou para trás, quando ele viu um homem à porta da igreja com a mão assim. E diz ele assim:

— Ai, pobrezinho! Olha, eu já dei aqui isto, mas deixa lá ver se ainda encontro alguma coisinha.

Rebuscou, rebuscou, e ainda encontrou, e põs-lhe uma moeda na mão. Depois o rapaz seguiu e o homem desapareceu. Bom, no outro dia foi guardar umas cabras e diz o patrão assim:

— Olha, vai além para aquela terra, que além há porcos espinhos, há bichos, há coisas.

Diz ele assim.

— E vai de noite.

— Então está bem.

E ele, de noite, quando se ia deitar, ouviu uma voz e dizia:

— Podes ir, que a gente salva-te.

Bom, o rapaz tinha aquela fé e agarrou, foi ao coiso do porco. Foi lá, as cabras comeram, comeram, comeram, quando lhe apareceu um porco espinho. Quando vai, no mesmo tempo apareceu-lhe uma rapariga. E disse-lhe assim:

— Quando o porco de espinho chegar, tu dizes isto.

Quando o porco de espinho chegou ao pé dele para comer as cabras, ele disse assim:

— Ah, porcos espinhos, porcos espinhos! Se eu tivesse aqui um beijo de uma donzela, eu deitava contigo à terra!

Pois aquela imagem aparecia, dava-lhe um beijo, matava o porco espinho. E depois, ele cá vinha, andando outra vez, vinha andando outra vez para casa. Ora, trazia as cabras, que era o quê. E onde os outros pastores que iam lá, [o porco espinho]matava tudo.

Bom, um dia, o que é que ele faz? Estava muito contente com ele, muito contente com ele, e depois, quando passou, mais tarde, eles foram outra vez. Foi outra vez, apareceu-lhe um pintassilgo. Apareceu um pintassilgo, o pintassilgo deixou o rapaz apanhar, ele veio com o pintassilgo para casa muito contente. Nessa altura veio logo trazer o pintassilgo porque não tinha gaiola, e meteu o pintassilgo na gaiola. E o pintassilgo disse:

— Tu, eles te há-dem-te de mandar para outro lugar, mas tu vai. Não faz mal.

O rapaz ia, lá vinha outro bicho. Agarrava, ele salvava, salvava-o sempre. Quando depois, vinha para casa. E, um dia, a rapariga começou a dizer à mãe e ao pai:

— Quem sabe? Tu metes toda a gente, quem sabe lá se ele é algum ladrão que tu tens aí em casa? Para que o queres?

Aí, e a rapariga agarrava, tirou o ouro da mãe. Tirou o dinheiro da mãe e foi pôr no saquinho que o rapaz trazia, porque ele dizia que já se queria ir embora. E ele agarrou, e depois de ele abalar, ela disse à mãe:

— Quem sabe lá se seria algum ladrão que aí entrou?

Diz a mãe:

— Ó mulher, não digas isso! Então, um rapaz tão bom, e era um ladrão?

— Quem sabe lá!

O rapaz foi-se embora. Ah!, e ela, de noite, batia à porta dele, queria dar com ele e ele via que ela já gostava dele, e dizia:

— Ó menina, olha que eu sou um pobre desgraçado, não sou capaz para a menina.

E ela queria! Foi então que pensou em fazer-lhe a falsidade. E depois o rapaz agarrou, quando viu quando viu que aquilo havia de se dar ali, foi-se embora. Foi, abalou, e andando, andando, não havia nada, não havia nada. E onde, andava um senhor a lavrar com as bestas e a zangar-se. E quando, como ela disse que era ladrão, foram ver. Ora, não havia ouro, não havia dinheiro, não havia nada. Foram ao encontro dele, com os cavalos. Era o padrinho e era a mãe da moça, e era o coiso com aqueles cavalos. E o rapaz estava a conversar com aquele senhor, e disse assim:

— Ó menino, espera lá aí, que estão-lhe a fazer sinal.

Bom, parou. Quando chegou logo a rapariga, e diz assim:

— Ah, bandido, tu foste um ladrão que roubaste a minha mãe!

E o pai dizia:

— Então a gente fez tudo o que pôde e tu ainda me foste roubar?

Vai, quando apareceu… Quando, ao fim de um pouco, apareceu um cavalo que até deitava fogo pelas ventas e só a dar sinal. E eles já tinham ali quem fizesse um… Um ia morrer enforcado. Ele agarrou, aquele cavaleiro, chegou, põs-se do lado do rapaz e quando, vai, e perguntou:

— Então, o que é que vão fazer a este rapaz?

— Este rapaz vai morrer enforcado!

— Porque ele roubou! — dizia logo ela, a rapariga — Ele roubou o meu pai!

E o cavaleiro dizia:

— Olha lá, menina, tu, às altas horas da noite não batias à porta do rapaz, que querias falar com ele? E ele dizia: «Vá-se embora, menina, que eu não sou capaz, que eu sou um pobre desgraçado, que eu não sou capaz». E tu continuavas. Chegou a um ponto, tu… O rapaz teve que se vir embora por causa disso.

E depois agarrou, aquilo, os guardas viram que o rapaz estava cheio de razão, e quando, o outro, o rapaz disse para o outro, e o homem que andava lavrando, todo pasmado a ouvir aquela conversa, e o outro perguntou, aquele homem perguntou-lhe assim:

— Mas quem é o senhor, que eu não o conheço?

— Tu não te lembras? Tu foste à igreja, tu deste esmolas para arranjar os santinhos que estavam já velhinhos, tu foste a outro altar, tu deste o teu dinheirinho. E quando eu vim para cá, quando tu vinhas saindo, não viste um homem que estava ali, que te pediu qualquer coisa, e tu não disseste que não tinhas nada, mas ainda correste, ainda conseguiste arranjar uma moeda. Pois sou eu, eu é que te vim salvar. Porque o teu destino era este — disse depois o homem -. O teu destino era este, dos dezoito anos, de ires morrer enforcado. E com aquela moeda que me deste, eu sou o destino, eu é que te vim salvar.

 

Colectora: Márcia André 1998, Loulé; informante: Maria Pires

Classificação: AaTh 506*, A Profecia Evitada

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