História do Touro Azul

Era um casal que tinha uma filha e morreu a senhora e ficou a menina orfã. Depois, o pai casou com uma senhora (onde) [que] tinha duas filhas; e não se davam bem com a menina. E a madrasta mandou-a para o bosque guardar touros, para ver se ela emagrecia e morria. Mas um touro era mágico, e via a menina cheia de fome e muito fraquinha e dizia-lhe:

— Mete a mão na minha orelha e tira uma toalha e estende-a, que aí te aparece tudo para comeres.

E assim fazia todos os dias. E, passados tempos, a madrasta foi lá para ver se ela já tinha morrido, ou se estava muito magrinha, e ela continuava cada vez mais bonita. Mas, depois, a madrasta pensou em destruir o touro. E o touro, como adivinhava, disse para a menina se montar e foram correr o bosque. Mas, pelo caminho, encontraram bichos (onde) [que] lutaram com o touro e feriram-no. E a menina, com bálsamo, curou as chagas do touro. E foram seguindo viagem e encontraram mais bichos que lutaram com o touro; o touro ficava muito fraquinho, muito doente, e muito muito mal. E seguiram. E chegaram a um rochedo, o touro estava muito fraco e dizia que morria e deu uma varinha à menina e disse para o enterrarem naquele rochedo e para ela ir à pergunta de trabalho. E a menina foi e encontrou um palácio de um rei, e deram-lhe trabalho; mas uns trabalhos forçados e as (e as) colegas tratavam-na mal, também.

Depois, havia uma festa e o Príncipe precisava de água para se lavar e a menina disse que ia levar o jarro da água ao Príncipe. E, quando lá chegou, o Príncipe deu-lhe com a água na cara. E, passado outro dia, ou no mesmo dia, pediu uma toalha e a menina foi-lhe levar a toalha, [e ele] deu-lhe com a toalha na cara. A seguir, pediu um pente. A menina foi-lhe levar o pente, deu-lhe com o pente.

E, depois, havia uma grande festa onde iam as filhas da madrasta, para irem dançar com o Príncipe. E as criadas diziam que a menina que não ia, porque estava muito sujinha e não tinha roupa para levar. E não a levaram. Foi tudo à festa e ela ficou sozinha. Mas lembrou-se da vara e foi bater no rochedo e apareceu-lhe vestidos muito lindos e um cavalo com umas lindas rédeas, e a menina foi para a festa. E, quando lá entrou, o Príncipe ficou admirado com aquela menina e só dançou com ela. E as filhas da madrasta ficaram muito furiosas e a madrasta [também]. Ficou tudo muito furioso.

E depois, passados mais dias, foi outra festa e a menina foi outra vez. Foi bater no rochedo outro vestido ainda muito mais bonito, debruado em prata, e as rédeas do cavalo também em prata. E a menina foi outra vez ao baile e o Príncipe só dançou com ela; e as filhas da madrasta ficaram muito revoltadas.

E, na última vez que foi a outro baile, a menina foi com a varinha e bateu no rochedo e apareceu-lhe vestidos muito mais bonitos, debruados em ouro, e as rédeas do cavalo em ouro. E ouviu uma voz que lhe disse:

— Não deixes passar da meia noite. Volta para casa antes da meia noite. (Pode pôr isto também antes).

Depois, a rapariga foi e o Príncipe só dançou com ela e não dançava com mais ninguém e cada vez elas mais furiosas. E já, era quase meia noite. E a rapariga andou dançando com o Príncipe e ele perguntou-lhe donde é que ela era. E ela disse:

— Sou do sítio das toalhas, sou do sítio do jarro da água — falando, falando — sou do sítio das toalhas — falando, falando — sou do sítio dos pentes.

E andavam distraídos a falar e era quase meia noite; a rapariguinha fugiu e deixou o sapato (em) que o Príncipe apanhou e levou-o para casa. Depois, correu (a) toda a cidade, a ver de quem o sapato era. E o sapato não servia a ninguém. E foi calçar nas filhas da madrasta, e havia uma que dizia que era dela, mas tinha já o pé em sangue. E, depois, um passarinho poisou e disse:

— Tem sangue no pezinho. Tem sangue no pezinho.

Foram ver e estava o pé cheio de sangue. E, então (que), só faltava calçar na criada, na pobrezinha. E as outras diziam:

— Ah! Não vale a pena nela! Não vale a pena calçar nela.

E sempre foi. Calçaram e, assim que calçou o sapato, apareceu todo o vestuário como ela apareceu no baile a dançar.

E, então, casaram, e são felizes para sempre.

 

Classificação: AaTh 511 A, *O Touro Azul (A Vaquinha Vermelha)

Colectora: Olga Gago 1999, S. Brás de Alportel; informante: Maria de Sousa da Silva

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