Era uma vez um rei que tinha um filho

Era uma vez um rei que tinha um filho, era miúdo ainda, tinha uns dez, onze anos. Andava a brincar, a jogar à bola ao pé da cadeia, nisto deixa saltar a bola para dentro da cadeia e um preso agarrou a bola e o miúdo mandou soltar o preso, disse ao guarda que soltasse o preso. Veio o pai e disse assim:

— Quem é que o mandou soltar?

— Foi o seu filho!

— Onde está o meu filho?

Nisto mandou chamá-lo, mandou dois criados com ele e disse-lhes assim:

— Vão com este rapaz, matem-no e tirem-lhe a língua e a cachola , que eu quero ver.

Eles foram com ele, como o rei mandou. Chegaram lá a um certo sítio e pensaram em não o matar. Passou por ali uma canita que andava por ali, mataram-na e tiraram-lhe a a língua e a cachola da cadela. Mandaram-no embora e o rapaz foi. Vieram de lá entregaram a língua e a cachola ao rei:

— Aqui está a língua e a cachola do seu filho! – ele pensou que eles o tinham matado.

O rapaz vai dali embora, chegou a um sítio e perguntou se havia trabalho para ele e o senhor disse-lhe:

— Sim, foi-se o moço dos coelhos embora, tu podes ficar.

Ele ficou ali na casa do rei, mais tarde, um ano mais tarde, o rei chamou os príncipes, rapazes para fazer umas cavaladas. O primeiro que chegasse ganhava a filha dele! O rapaz andava com os coelhinhos. O rei disse-lhe logo assim:

— Mas depois cuidado com os coelhinhos, que eles depois safam-se! Não os percas de vista.

E à tarde desapareceram todos os coelhinhos. Ora, pôs-se a chorar em cima de uma pedrinha, era sol posto para se ir embora:

— Perdi os coelhinhos!!

Chega-se um velhotinho ao pé :

— Então porque é que choras rapazinho?

— Ora, não hei-de chorar se o meu patrão mandou-me para aqui com os coelhinhos e eles desapareceram-me todos.

— Não chores! Toma lá esta flautinha. Assim ao sol posto quando te quiseres ir embora vai tocar na flautinha (gaitinha) e os coelhinhos vêm todos.

Aí começou a tocar na flautinha, mais logo os coelhinhos tudo a saltar atrás dele até casa. O patrão ficou muito contente. Bom, mais tarde ao fim de uns tempos o rei tinha os rapazes convidados para ir para as cavalhadas, estava ele lá num sítio com os coelhinhos chega-lhe o dito velhote ao pé:

— Olha vai lá ao teu patrão, mas não digas nada. Vai lá que há uns cavalos e uns rapazes a ver se ganhas a princesa. Mas não digas ...que eles não conhecem quem és. Lá lhe disse como se havia de governar. Ele lá veio por aí fora, quando lá chegou, lá estava um cavalo preparado. Começou a cavalgar mais os outros e foi o primeiro a chegar e ganhou a princesa. Aí feriu uma mão com uma espada ou uma coisa qualquer, a princesa jogou-lhe logo o braço, ele já a tinha ganho, e jogou-lhe um lenço com o nome dela para ele limpar o sangue. Bom, nisto ele estava a fazer a cura vai uma das criadas viu o lenço da princesa nas mãos dele, ele vai:

— Oh senhora princesa, o moço dos coelhos tem o seu lencinho!

— Deixa tê-lo!.

Mais tarde o rei chamou quem tinha sido o primeiro. ( ___ ) Mais tarde lá se apresentaram, o rei chamou os reis das nações todas que havia para irem ao casamento, à função, da filha e do rapaz , do príncipe porque ele era príncipe. Depois ele veio a saber que ele era príncipe, mas não sabia de onde é que era (o conto para ser conto tem que ser assim!). Mandou vir o pai dele também ao casamento. Pediu às cozinheiras que estavam a cozinhar que no prato do rei tal só pusessem língua e cachola e mais nada, mais nada. Os outros todos com boas coisa e a ele só vinha língua e cachola! Quando viessem os doces é o mesmo, só língua e cachola. E elas lá fizeram isso.

Lá estiveram comendo, lá estiveram...quando o rei se levanta para falar, diz ele assim:

— Dão-me licença para falar? – disseram-lhe que falasse.— Então porque razão os outros pratos têm cada um a sua qualidade e o meu é só língua e cachola, só língua e cachola? – não se lembrava já do que tinha feito.

Vai o príncipe levantou-se, pediu licença para falar e disse assim:

— Meu pai, só tem língua e cachola porque me mandou matar e os senhores que foram comigo encontraram uma canita, mataram-na, tiraram-lhe a língua e a cachola e disseram que era minha! O meu pai pensou eu me tinha matado, pois agora eu ainda aqui estou e agora come a língua e a cachola!

 

Colectora: Cidália Bicho 2000, Cachopo; informante: Maria Custódia

Classificação: AaTh 570, O Pastor de Coelhos

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