Revista ELO 5

Index

Feminism and Bluebeard, Rose Lovell-Smith

Perspectives on Cowgirls; Humour and Images of the American West, Kristen McAndrews

Gender Troubles? How Clergymen’s Wives Constitute Gender Birgitta Meurling, Birgitta Meurling

Personal Narratives on War: A Challenge to Women’s Essays and Ethnography in Croatia, Renata Jambresic Kirin

Women’s and Men’s Storytelling: What is the Difference?, Gabriela Kiliánová

The Multilingual Subaltern: Creolization as Agency, Lee Haring

The Rebellious Girl Desiring the Perfect Man: Role Assignments in Folktales of the Bulsa in Northern Ghana, Rüdiger Schott

Looking for a Spouse in Mwera Folktales, Uta Reuster-Jahn

Gender and Magic in Jukun Folktales, Anne Storch, Sabine Dinslage

Recognising Female Sexuality: AT 313, The Maid as Mentor in the Young Man’s Maturation, Gerald Thomas

Speech and Gender: Indian Versions of The Silence Wager (AT 1351), Stuart Blackburn

Virgins in Brothels: Gender and Religious Ecotypification, Daniel Boyarin

The Wearing and Shedding of Enchanted Shoes, Isabel Cardigos

Género, Cultura e Folclore, Aili Nenola


Resumos

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Feminism and Bluebeard

Rose Lovell-Smith

Desde a primeira vez que foi publicado, em 1697, “O Barba Azul” (AT 312) tem tido uma história particularmente animada na literatura escrita. A importância do conto na era vitoriana foi recentemente reconhecida no filme de Jane Campion O Piano, mas Campion chegou depis de uma série de escritoras como Katherine Mansfield, Angela Carter e Margaret Atwood, que se sentiram compelidas a re-escrever esta história do ponto de vista da heroína. Referindo-se ao trabalho umas das outras, estas mulheres conseguiram estabelecer um diálogo, através de distâncias consideráveis de espaço e de tempo, em torno de “O Barba Azul”. As suas leituras do conto diferem muito das leituras masculinas. Re-escrevendo “O Barba Azul” em inglês, essas mulheres criaram assim uma espécie de roda de contadoras. A crítica feminista do conto de fadas pode ser transmitida com uma imensa força por escritoras que recontam a história que sabem.

 

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Perspectives on Cowgirls; Humour and Images of the American West

Kristen McAndrews

O meu artigo foca o papel do humor, particularmente na medida em que, através dos fenómenos simultâneos de inclusão/exclusão, despista a audiência, através duma narrativa contemporânea coligida de Kit McLean, uma tratadora de cavalos ou cowgirl, cujo principal emprego é lidar com cavalos. Examino o modo como esta narrativa popular reflecte o humor e o que é que esse humor revela sobre a identidade sexual no que respeita à imagem do Oeste Americano. Debruço-me sobre a comunidade de Winthrop, no estado de Washington, cidade legalmente endossada para promover o tema do Oeste. A narrativa emerge duma comunidade tradicional que engrandece, através do turismo, imagens do Oeste Americano — em particular a imagem do cowboy. Ao contar a sua história, Kit McLean emprega técnicas tradicionais da narrativa masculina, mas alarga ou mina estas estratégias, introduzindo imagens e temas que não são tradicionais. Podemos ter uma ideia da natureza destas dinâmicas da diferença sexual ao examinarmos como a narrativa se relaciona com convenções de patranhas (tall tales) associadas ao Oeste Americano, e mais especificamente a esta pequena comunidade de Washington. Trata-se dum conto não tradicional contado dentro da moldura duma comunidade muito tradicional mas baseada no turismo. É meu objectivo tentar compreender o funcionamento do humor quando a identidade sexual, o turismo e as noções predominantes do Oeste Americano necessariamente se entrecruzam, despistando uma audiência de turistas estranhos a esta conjuntura.

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Gender Troubles? How Clergymen’s Wives Constitute Gender Birgitta Meurling

Birgitta Meurling

Este artigo tem por objectivo discutir como as mulheres dos clérigos suecos constituem uma identidade sexual em relação a diferentes organizações sociais, que podemos denominar de cultura social e cultura clerical. A história de vida individual é uma história de várias “feminilidades”, em que o estabelecimentodo género “tradicional” e do género “moderno” se encontram e em que a “feminilidade tradicional” é expressa num contexto cultural e a “feminilidade moderna” é expressa noutro. As fontes teóricas que inspiram este trabalho são de natureza etnológica/folclorística, estudos sobre a identidade sexual e teoria feminista.O principal material analisado são entrevistas com oito mulheres de clérigos de várias idades. Abordando temas como educação e carreira, o projecto de ser a mulher de um clérigo, a maternidade e a amizade, discute-se como estas mulheres empregam várias estratégias para constituirem a sua identidade sexual. A vocação clerical é o cerne do contrato do casal clerical, e a análise mostra como os eixos da identidade sexual masculina e do poder proveniente da posição tendem a reforçar-se mutuamente, quer no papel profissional do clérigo quer na família clerical. Para compreender como a continuidade e mudança estão entrelaçadas de uma forma complexa e dinâmica, são invocados os conceitos de “constituição”(constitution) e “capacidade de regulação” (regulativity). Torna-se, assim,compreensível a ocorrência de fenómenos diferentes e por vezes contraditórios numa mesma pessoa.

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Personal Narratives on War: A Challenge to Women’s Essays and Ethnography in Croatia

Renata Jambresic Kirin

Este artigo discute em que medida o rigor da descrição etnográfica e literária das experiências de guerra das mulheres croatas depende da capacidade de “traduzir”as tragédias e condicionamentos pessoais e colectivos causados pela guerra em preocupações teóricas pós-modernas mais gerais. Enquanto ambos os discursos incorporam vestígios verbais de encontros com a violência, a dor e a desilusão, assim como a disputa sobre a possibilidade de representar as vítimas sem voz, esses dois discursos oferecem diferentes pontos de vista sobre os conceitos pós-modernos de identidade, hibridez, desenraizamento, trauma, e o “direito de contar” baseado na voz da dor individualizada. Escritoras e jornalistas combinaram críticas feministas e socio-políticas a fim de identificar o nacionalismo e o eurocentrismo como os principais preconceitos europeus, como quem olha, intermitentemente, uma pequena cozinha e um panorama abrangente. As etnógrafas croatas, por outro lado, abraçaram uma etnografia de guerra pluri-vocal baseada na assunção de que a experiência desse extraordinário sofrimento podia e devia articular a sua voz pública própria e potencialmente subversiva. O objectivo das etnógrafas de guerra croatas foi demonstrar como a literatura testemunhal e as escritas sobre a guerra da gente comum podiam ajudar a democratizar o discurso historiográfico e a estabelecer uma imagem da nação croata forjada através do sofrimento da guerra, da solidariedade e da resistência, cujo valor cultural consensual vai muito mais além do mau uso que dele se fez no âmbito do discurso nacional dominante.

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Women’s and Men’s Storytelling: What is the Difference?

Gabriela Kiliánová

A autora discute a diferença entre contadoras e contadores nas comunidades eslovacas contemporâneas em que se contam histórias. A principal questão levantada é a seguinte: qual a diferença do reportório dos contadores e das contadoras? O problema é abordado do ponto de vista da actividade masculina e feminina nas comunidades narrativas, do ponto de vista da prevalência de narradores masculinos em relação aos femininos e do ponto de vista da especialização de género dentro dos reportórios de cada um dos grupos. A questão final é se as mudanças operadas pela modernização influenciaram já a comunicação narrativa na Eslováquia. As questões são discutidas com base em dados empíricos obtidos numa comunidade rural em que a autora realizou trabalho de campo de 1981 a 1983. Conclui-se que as diferentes possibilidades que os homens e as mulheres têm de narrar as suas histórias influenciou (entre outros factores) o seu desenvolvimento como narradores e fez com que os contadores suplantassem as contadoras. Os resultados da investigação contemporânea apoiam ainda a ideia duma especialização de géneros ou de temas entre homens e mulheres. Embora na maioria dos casos os contadores e contadoras da comunidade investigada tivessem um reportório misto, os melhores narradores de histórias humorísticas eram – quer do ponto de vista da comunidade quer do da investigadora – os homens; enquanto a melhor narradora de contos maravilhosos, lendas e histórias de fantasmas era uma mulher. Devido à pressão social, pode observar-se que prevalece a divisão de papéis entre os sexos, pelo menos dentro do contexto duma audiência mista. A actividade narrativa das mulheres parece ainda ser em parte limitada por regras sociais que estas esperam das mulheres que actuem num círculo feminino, em grupos pequenos e na intimidade. Tal tendência é mais forte no caso da narrativa de histórias humorísticas e eróticas. Por outras palavras, o impacto do papel das “novas mulheres” na sociedade moderna é apenas parcialmente seguido na comunicação narrativa da Eslováquia contemporânea.


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The Multilingual Subaltern: Creolization as Agency

Lee Haring

As ilhas do Sudoeste do Índico são um caso paradigmático para tentar entender o fenómeno de aculturação. Ali, quando as etnias e culturas se misturam, o agente central de mediação e crioulização é frequentemente a mulher. Na História como na ficção, é a mulher que é obrigada a aprender a falar ou a agir transpondo fronteiras linguísticas e étnicas. As mulheres goesas e malgaxes que se casaram com europeus na Île Bourbon oitocentista, as mulheres crioulas de lojistas chineses nas Maurícias do século XIX, as avós que são guardiãs activas da tradição nas Comores do século XX – todas mostram a necessidade de se considerar o sistema da identidade sexual como uma categoria fundamental da análise textual e social. As mulheres do Sudoeste do Índico actuam como agentes de crioulização, acrescentando novos modelos culturais aos antigos. Actuam como guardiãs da nova multiplicidade de identidades culturais que experimentam nas suas vidas. Assim, a crioulização deveria ser considerada como uma forma de agenciamento agency. O conto e a lenda em Madagáscar, nas Maurícias e nas restantes ilhas abrem uma janela para uma área bem necessária dos estudos etnográficos. A crítica feminista necessita de se basear nas evidências empíricas fornecidas pelas artes verbais.

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The Rebellious Girl Desiring the Perfect Man: Role Assignments in Folktales of the Bulsa in Northern Ghana

Rüdiger Schott

Nas sociedades patrilineares, as raparigas têm um estatuto de marginais. Com o casamento, o meio social a que pertencem deixa de ser a família do pai e passa a ser a do marido. A posição social instável das raparigas e os conflitos que daí resultam quanto à atribuição de papéis reflectem-se nos contos da sociedade patrilinear dos Bulsas Norte do Gana. Um número substancial de contos tradicionais diz respeito à “rapariga rebelde”, que, ou se recusa a casar, isto é, a aceitar o seu papel de mulher adulta na sociedade, e/ou que espera pelo “homem perfeito”. Quando a rapariga finalmente se decide a seguir um certo homem que lhe parece ser sem mácula, este, afinal, não é um ser humano, mas um fantasma ou um animal selvagem, como uma vaca do mato, um leopardo, uma cobra ou até uma árvore. Noutras histórias, a rapariga procura o homem moralmente “perfeito”: todos os pretendentes da rapariga são submetidos a um teste em que só passa aquele que prova ser realmente generoso. Contudo, a rapariga que é demasiado difícil na escolha de um marido acaba por se ver casada com um leproso ou com uma pessoa indesejável. Uma rapariga que insulta um pretendente feio perde a vagina, etc. Ao passar o limiar do casamento, as raparigas encontram-se numa enorme crise existencial. Os contos bulsas avisam-nas: se elas não aceitam um marido com algumas “imperfeições”, tanto elas como as suas famílias sofrerão consequências catastróficas. Estas ameaças morais expressas nos contos bulsas provam que as raparigas, no mundo dominado pelos homens das sociedades da África Ocidental, têm uma vontade e um desejo próprios. Na sua procura do marido perfeito, insurgem-se contra as restrições que lhes são impostas pela ordem social das sociedades patrilineares.


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Looking for a Spouse in Mwera Folktales

Uta Reuster-Jahn

Entre 1987 e 1991 recolhemos algumas séries de narrativas populares dos Mweras no sudoeste da Tanzânia. Cerca de dez por cento dessas narrativas dizem respeito à procura de um cônjuge. Neste artigo, interpretamo-las à luz da filiação matrilinear, casamento entre primos cruzados e residência uxorilocal dos Mweras. Estas características culturais dão lugar entre a família da mulher e o seu marido, a que Richards (1950:246) chamou “puzzle matrilinear”, o facto de um homem ter autoridade sobre os filhos da sua irmã, tendo ao mesmo tempo que ficar na aldeia da sua mulher, com pouca influência sobre os seus próprios filhos. Daí que muitos contos dos Mweras refiram as dificuldades com que um indivíduo se depara para encontrar um cônjuge. A sua frequência denota a importância dada a este tema. As histórias em que uma rapariga escolhe apresentam as raparigas insistindo num parceiro fisicamente atraente. Os homens solteiros arranjam uma mulher com ajuda sobrenatural. Quer os homens quer as mulheres perdem o seu cônjuge no final. Interpretamos ambos os tipos de histórias, comparando-os, e concluimos que são expressões do conflito entre desejos individuais e requisitos sociais. Os contos reflectem o sexo dos narradores pela diferente ênfase dada aos detalhes da intriga. Estabelecemos também uma comparação com os contos da rapariga difícil pertencentes a contextos patrilineares da África Ocidental.

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Gender and Magic in Jukun Folktales

Anne Storch, Sabine Dinslage

Os Jukuns do nordeste da Nigéria ainda praticam, além do cristianismo e do islamismo, a sua própria religião tradicional, o maam. Dentro da sua sociedade, organizada patriarcalmente, toda a esfera ritual institucionalizada do maam é tabu para as mulheres. Os homens parecem ser superiores na vida religiosa, no culto dos antepassados e nas decisões políticas. É sobretudo no uso das máscaras e no culto dos antepassados que os homens exercem o seu domínio e superioridade para trairem as mulheres, a fim de realizarem os seus prórprios desejos. As mulheres, por seu lado, praticam um culto não institucionalizado e possuem um saber secreto que só a elas pertence. Numa sociedade em que não existe conhecimento duma causa natural para a doença e para a morte, os poderes mágicos das mulheres, escapando ao controlo dos homens, são uma ameaça constante em relação ao sistema organizado de domínio masculino. Nos contos dos Jukuns de Kona que recolhemos no decurso de várias jornadas de trabalho de campo desde 1995, esse conflito latente entre as esferas masculina e feminina constitui um tema nuclear. Em certos motivos da literatura oral de Kona, torna-se evidente que, para preservar o domínio masculino, é inevitável desarmar as mulheres, potencialmente perigosas, destruindo-lhes os seus orgãos sexuais. Várias histórias revelam, de uma forma complexa, que os homens têm medo dos saberes e das artes secretas das mulheres e especialmente da sexualidade feminina. Nota-se constantemente que os orgãos sexuais femininos são alvo de troça, enquanto os orgãos sexuais masculinos nunca são mencionados. É através da análise e descodificação dos motivos e mensagens, frequentemente velados, das narrativas orais, que se torna clara a relação ambivalente entre os sexos no seio da sociedade jukun, onde a magia é sempre usada como uma chave para explicar o mundo desconhecido do sexo oposto.


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Recognising Female Sexuality: AT 313, The Maid as Mentor in the Young Man’s Maturation

Gerald Thomas

O conto-tipo AT 313 é talvez o mais conhecido na tradição oral da Terra Nova francesa. O seu conteúdo, rico e complexo, oferece numerosas possibilidades interpretativas, mas a novidade da presente leitura é que se baseia num profundo conhecimento do contexto vivo e contemporâneo em que as versões da Terra Nova francesa foram narradas.Esta interpretação utiliza como base teórica a Interpretation of Fairy Tales de Benkt Holbek (1987), em especial os modelos de oposições semânticas no conto,as oposições temáticas e uma interpretação freudiana dos elementos do conto definida por Holbek como simbólica, isto é, os chamados elementos maravilhosos dos contos, que, segundo Holbek, se referem a “aspectos do mundo real tal como são experimentados pelos contadores e pelos seus ouvintes” (p. 435). Tal leitura sugere que o conto AT 313 oferece à sua audiência um determinado modelo de desenvolvimento socio-sexual dos rapazes e raparigas, em que o rapaz transita da imaturidade para a maturidade adulta, sendo tal passagem feita soba orientação de mulheres, especialmente com a ajuda iniciática da sua futura parceira. A rapariga, cujo poder é sexual, inicia sexualmente o rapaz, ultrapassa, por esse facto, a sua própria dependência em relação ao pai, e, em última análise, permite ao rapaz atingir a maturidade no desfecho do conto. A familiaridade com o contexto humano em que o conto tem sido narrado viabiliza esta leitura. Além disso, o conto, no referido contexto, foi mais frequentemente contado por homens, o que sugere, por parte deles, uma consciência do papel crucial das mulheres no processo de amadurecimento masculino, adequadamente resumido no título alternativo proposto para AT 313.

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Speech and Gender: Indian Versions of The Silence Wager (AT 1351)

Stuart Blackburn

Este artigo contribui para o debate sobre o silêncio e a identidade sexual nas ciências do folclore, apresentando uma nova análise de The Silence Wager (AT1351, ‘A Aposta do Silêncio’), baseada em versões tamiles recentemente recolhidas pelo autor e em versões de outras partes da Índia recentemente publicadas). Trata-se de um conto sobre um casal que faz o pacto de permanecer silencioso para obter uma recompensa ou evitar uma penalidade. Este conto foi escolhido porque exprime atitudes tradicionais em relação à fala e ao silêncio. Após proporuma nova classificação de versões e uma origem indiana meridional para o conto, este ensaio discute as referidas atitudes no contexto da cultura indiana e indiana meridional, indicando outros contos em que a fala ou o silêncio são proeminentes. O argumento principal é que, na Índia, a fala está associadaao sexo e à vida, enquanto o silêncio está associado ao asceticismo e à morte. Finalmente propõe-se que, em vez de implicarem um silenciamento da voz feminina, as versões indianas do conto exprimem uma ambivalência cultural em relação à fala e ao silêncio.

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Virgins in Brothels: Gender and Religious Ecotypification

Daniel Boyarin

Comparam-se, neste artigo, duas versões paralelas dum motivo narrativo, a “virgem no bordel”. Ambas são do séc. IV, uma do Talmude e outra do escritor cristão Ambrósio de Milão. Uma vez que se pode provar que as diferenças entre estes dois textos tão próximos estão relacionadas com diferentes ideologias religiosas correntes entre Judeus e Cristãos na Baixa Antiguidade, parece possível designar este tipo de variação como ecotipificação religiosa.

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The Wearing and Shedding of Enchanted Shoes

Isabel Cardigos

O paradoxo inerente ao conceito de “sapato” – uma constrição que permite andar mais e mais depressa – reflecte-se de várias formas nos contos maravilhosos.Enquanto o segundo termo do paradoxo (instrumentos que facilitam o andar) se aplica sobretudo a protagonistas masculinos, o primeiro termo desdobra-se de muitas formas quando o sapato é duma personagem feminina. Partimos de versões portuguesas de O Noivo Animal (AT 425A) e Os Sapatos Estragados (AT 306), para daí considerar a função do sapato feminino, alargando-a a outros contos. Os sapatos femininos serão ícones de um estado de disjunção marital, por sua vez relacionado com um encantamento que só pode ser quebrado quando os sapatos estiverem ou estragados ou na posse do (futuro) marido. Usar os sapatos pode aparecer num registo eufórico ou disfórico; contudo, a imobilidade final da heroína (sem sapato ou sapatos) aparece sempre paradoxalmente relacionada com liberdade ou libertação – na maioria das vezes conducente a um estado de conjunção marital.

Um conto literário de Andersen e a sua reformulação no filme Michael Powell e E. Pressburger, Os Sapatos Vermelhos, permitem confirmar e iluminar as conclusões a que a análise nos conduziu.

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Género, Cultura e Folclore

Aili Nenola

 

Este artigo concentra-se na questão de saber como pode a tradição oral ser analisada do ponto de vista do consenso ou da contestação, e se tem sido usada para manter ou contestar as regras de identidade sexual duma comunidade. Afirma-se que a interpretação funcionalista do folclore prestou sobretudo atenção às formas e meios como o folclore foi utilizado para manter o status quo duma comunidade. L. Lombardi-Satriani, no princípio dos anos 70, apresentou uma perspectiva diferente, descrevendo o folclore como uma “cultura de contestação”. Utilizando este conceito, a autora tentou ver se as mulheres usaram o folclore para contestar o seu estatuto de subordinadas ou o domínio dos homens sobre elas. Apresentam-se alguns exemplos da tradição ugro-finlandesa desse folclore de contestação. Um exemplo particular são as festas anuais de mulheres em que estas podem inverter os papéis e os comportamentos de identidade sexual, apropriar-se do espaço público, embebedar-se, cantar e dizer obscenidades e troçar dos homens, se eles, por acaso, se intrometem. A interpretação da autora é que, se bem que apenas por um dia, as mulheres podiam, desta forma, exprimir o que pensavam do status quo e do comportamento dos seus homens. Além disso, outros aspectos destas festas parecem apontar para uma solidariedade entre mulheres e uma consciência da importância do seu trabalho para a comunidade. Estas tradições são, pois, um exemplo de contestação, mas não ainda de revolução: no dia seguinte, a vida prossegue de forma “normal”. São igualmente dados outros exemplos de tradições de contestação.

A autora observa também que o que sabemos das tradições femininas parece indicar que, na sua globalidade, elas representam um cultura de consenso, mas que não devemos aceitar tal conclusão como um dado adquirido, uma vez que a maioria das colectâneas e dos estudos de folclore foram levados a cabo por investigadores masculinos que talvez não tenham podido descobrir o folclore feminino de contestação, ou não tenham podido apeciá-lo ou que talvez não tenham visto meios alternativos de interpretar as fontes. De qualquer modo, os folcloristas estão em melhor posição para estudar os vários aspectos da vida e do modo de pensar das mulheres do que os investigadores da tradição literária, uma vez que as mulheres nas culturas orais eram também consideradas como sujeitos produtores de cultura e, assim, os arquivos de folclore incluem geralmente tanto as tradições masculinas como as femininas.


 

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