Revista ELO 3

Index

Entre a Oralidade e a Escrita: Um Estudo dos Folhetos de Cordel Nordestinos, Márcia Abreu

Em Busca da Voz do Travesti Feminino no Conto Tradicional, Luísa Atunes

Fairy Tale Motives in Advertising (Motivos de Contos de Fada na Publicidade), Patricia Anne Odber de Baubeta

Transformações não Punitivas no Romance Tradicional Conde Ninho no Memoria do Património Português, Maria Aliete Dores Galhoz

About the “Authentic” and the “Spurious” (Sobre o “Autêntico” e o “Espúrio”), Heda Jason

The Tricky Farmhand and the Innocent Maid. Erotic Narrative and Construction of Gender in Premodern Sweden (O Criado Esperto e a Rapariga Inocente: Narrativa Erótica e Construção do Género Na Suécia pré-Moderna), Inger Lövkrona

Le Beau ou le Vrai ou la Difficile Naissance en Bretagne et en France d’une Science Nouvelle: La Littérature Orale (1866-1868) (O Belo ou o Verdadeiro ou o difícil Nascimento na Bretanha e em França duma Nova Ciência: A Literatura Oral), Fañch Postic

Entre lo Real, lo Sobrenatural y lo Marvilloso: Los ŷinn y los Gūl en la Literatura Palastina de Tradición Oral: La Jrefiyye, Monserrat Rabadán Carrascosa

Do Ciclope da Odissea ao Olharapo da Tradição Oral Transmontana, Manuel Ramos

Isabel de Liar. Versiones de Milà en la Biblioteca de Menéndez Pelayo, Salvador Rebés

El Infante Delator: Modelos Patrimoniales, Vulgares y Virtuales en el Romancero Tradicional, María Jesús Ruiz

Notes to some Stories of Arabische Maerchen, 2nd vol., translated and edited by Max Weisweler (Notas a Algumas Histórias dos Arabischen Maerchen, 2º volume, traduzido e editado por Max Weisweiler), Elisheva Schoenfeld

Capuchinho Vermelho — II: Quadro Sazonal e Simbolismo Cíclico, Francisco Vaz da Silva


Resumos

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Entre a Oralidade e a Escrita: Um Estudo dos Folhetos de Cordel Nordestinos

Márcia Abreu

Este artigo busca examinar a literatura de folhetos nordestina, forma poétic impressa de grande circulação entre as classes subalternas do Nordeste do Brasil. Importa entender o sucesso de uma literatura escrita e impressa funto a populações iletradas ou afastadas dos núcleos centrais de produção de escrita e leitura.
O segredo da larga difusão destes textos parece estar em seu carácter mediador entre o mundo da escrita e o da oralidade, que se revela na forma poética empregada — ancorada em padrões de composição oral — bem como nos modos de circulação que privilegiam as leituras oralizadas.

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Em Busca da Voz do Travesti Feminino no Conto Tradicional

Luísa Atunes

Partindo do motivo do travesti feminino (mulheres que se disfarçam temporariamente de homens) no conto das “Afilhadas” (13 variantes inseridas em várias colecções de contos populares portugueses) e por comparação com material antropológico e mítico greco-latino (rituais pré-nupciais, festas e lendas), tentaremos dar conta da emergência da voz feminina (silenciada pela Antiguidade Clássica e Civilização Cristã) e de uma eventual emergência do Mito da Androginia, onde confluem a angústia humana da separação e isolamento e, como imagem especular, o desejo de Unidade, Totalidade e Harmonia.
Será o Conto Tradicional guardião de uma voz mais sábia e solidária a que a erosão do tempo retirou volume e nitidez?

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Fairy Tale Motives in Advertising (Motivos de Contos de Fada na Publicidade)

Patricia Anne Odber de Baubeta

Proponho-me, neste artigo, seguir a recomendação de Wolfgang Mieder, de que os múltiplos usos dos contos de fadas “têm que ser documentados e interpretados no que respeita à sua função e significado” (Tradition and Innovation in Folk Literature, 1987, p. 4), e explorar os diversos modos como a publicidade que utiliza contos de fadas transmite significados. Em primeiro lugar, proponho que os textos e imagens publicitárias são equiparáveis, como expressão de creatividade e imaginação, a formas de arte mais “convencionais” como a poesia, a prosa ficcional, o drama ou o filme, e devem, por conseguinte, ser “lidas” da mesma maneira. Após alguns breves comentários sobre o corpus publicitário que constitui a base da discussão, o estudo considera alguns aspectos gerais da publicidade. No passo seguinte estabelecem-se paralelos entre os contos de fadas e a publicidade em geral, particularmente como ambos os géneros jogam com os desejos (e os medos). Finalmente, através de uma série de análises detalhadas de anúncios da imprensa e da televisão que deliberadamente fazem uso de personagens, intrigas, linguagem e imagens de contos de fadas, exploro o mecanismo de persuasão dos publicitários para convencer potenciais compradores de que um fim feliz é possível, de que os sonhos podem tornar-se reais.

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Transformações não Punitivas no Romance Tradicional Conde Ninho no Memoria do Património Português

Maria Aliete Dores Galhoz

Referem-se as transformações não punitivas no romance tradicional Conde Ninho na memória do património português. Dá-se a progressão da pequena “fábula” do romance: Motivos (S. Thompson) D1275, Magic Song + T80 Tragic Love + E670 Repeated reincarnation / S401 Unsuccessful attempts to kill person in successive reincarnations (transformations). Analisam-se rapidamente os estudos fulcrais referentes às transformações em Conde Ninho, particularmente o de Edith Rogers, 1973. Comparam-se similitudes, também no contexto pan-europeu. Dá-se a axiologia ascencional das transformações não punitivas dos dois namorados perseguidos presentes na elocução portuguesa, em Conde Ninho, do tema universal “o amor mais forte que a morte”.

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About the “Authentic” and the “Spurious” (Sobre o “Autêntico” e o “Espúrio”)

Heda Jason

Discute-se o problema do que deveria e não deveria ser considerada literatura popular “genuína” e, por conseguinte, parte do corpus de investigação. Resolve-se o problema a favor de que seja considerado “autêntico” no que respeita a uma comunidade tudo o que é desempenhado dentro dessa comunidade (independentemente das fontes que lhe estão na origem).
Não são produtos genuínos as fraudes conscientes, tais como os textos e contextos manipulados e produzidos (1) nos revivalismos culturais e nacionais; (2) com objectivos de propaganda política; e (3) o “folclore para turistas”, ou seja, com intenções comerciais. Nos três casos, um dos contextos de consumo e produção fraudulentos são os “festivais de folclore”.
O estatuto do texto registado (seja ele em papel ou em cassete) é o duma fotografia de um ser vivo, ou seja, não é genuíno nem fraude. Em qualquer caso o investigador deve sempre aplicar uma crítica textual cautelosa a todos os materiais que usa.

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The Tricky Farmhand and the Innocent Maid. Erotic Narrative and Construction of Gender in Premodern Sweden (O Criado Esperto e a Rapariga Inocente: Narrativa Erótica e Construção do Género Na Suécia pré-Moderna)

Inger Lövkrona

O principal objectivo deste estudo é iluminar os modos como a narrativa erótica contribuiu para a construção do género (dos sexos), legitimando as diferenças e a hierarquia masculina na Suécia pré-moderna. As identidades culturais são construídas e negociadas através da interacção social, quer através da experiência social quer através do discurso. Nestes processos, a performance narrativa desempenha um papel importante. Articulo a análise narrativa com as teorias pós-modernas sobre o género (dos sexos) e a construção da identidade. Este trabalho parte do princípio de que as mulheres e os homens pré-modernos também se pensaram como seres “com género”.

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Le Beau ou le Vrai ou la Difficile Naissance en Bretagne et en France d’une Science Nouvelle: La Littérature Orale (1866-1868) (O Belo ou o Verdadeiro ou o difícil Nascimento na Bretanha e em França duma Nova Ciência: A Literatura Oral)

Fañch Postic

A França surge com um certo atraso no vasto movimento de interesse pela cultura popular que se desenvolve na Europa a partir de finais do séc. XVIII. A Bretanha desempenha um papel preponderante nesta tomada de consciência, graças nomeadamente a Théodore Hersart de la Villemarqué (1815-1895), que, em 1839, publica o Barzaz-Breiz, primeira colectânea que, em França, apresenta cantos populares recolhidos da tradição oral. Imediatamente traduzida para várias línguas, esta obra torna o seu autor extraordinariamente famoso, quer em França uqer no estrangeiro. No entanto, pouco a pouco, vão-se elevando vozes que põem em dúvida a autenticidade dos cantos reunidos naquela colecção. E, quando nas primeiras semanas de 1866, sai uma edição definitiva da obra (em que La Villemarqué aplica e confirma os princípios que seguira em 1839), um certo número de especialistas franceses da Filologia e da Literatura criticam abertamente o método usado e, em contrapartida, são levados a definir as regras que deveriam adoptar na publicação científica de documentos provenientes da tradição oral. Estas regras são aplicadas pela primeira vez, em 1869, nas Gwerziou Briez Izel, colectânea de cantos populares recolhidos na Bretanha por François-Marie Luzel (1821-1895). Este autor torna-se um dos principais opositores de La Villemarqué. Mas, ultrapassando rapidamaente o quadro duma simples luta entre dois homens que procuram ocupar um lugar preponderante na literatura bretã, esta controvérsia torna-se, a nível nacional, numa oposição entre duas concepções: ao rigor metódico e científico duns opõem-se o bom gosto e a preocupação estética doutros. O Belo ou o Verdadeiro? La Villemarqué ou Luzel? Um debate que, no final dos anos 60 do séc. XIX, terá como consequência, em França, o nascimento duma ciência nova: a “literatura oral”.

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Entre lo Real, lo Sobrenatural y lo Marvilloso: Los ŷinn y los Gūl en la Literatura Palastina de Tradición Oral: La Jrefiyye

Monserrat Rabadán Carrascosa

O jrefiyye, ou conto maravilhoso, é um tipo específico de narrativa que faz parte da literatura oral palestiniana. A jrefiyye é um verdadeiro universo, povoado por uma série de personagens maravilhosas (gūl ou ogres e ŷinn ou génios). Estes seres não só estão presentes no mundo irreal dos contos como também fazem parte da experiência diária do povo e das suas crenças mais fortes. Neste artigo, por um lado, abordamos a dimensão real de tais seres, o modo como são vistos pelo povo árabe-muçulmano em geral e palestiniano em particular. Além disso, analisamos também esses seres dentro dos contos. como são, como vivem, etc. Tentamos, pois, mostrar como os gūl e os ŷinn estão presentes em dois planos ao mesmo tempo: no real e na ficção.

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Do Ciclope da Odissea ao Olharapo da Tradição Oral Transmontana

Manuel Ramos

O conto “O Olharapo”, transcrito e examinado neste artigo, é uma versão inédita recolhida em Trás-os-Montes, que mantém grandes semelhanças não só com a história do Ciclope da Odisseia como também com outros contos populares europeus do mesmo tipo, o AaTh 1137. No entanto, constitui uma versão particular com variantes em relação a todas as outras, motivadas não só pela competência da comunidade (aldeia comunitária do interior) onde ele se desenvolveu, mas ainda devido ao desempenho do contador, ele próprio um pastor, que terá contribuído com a sua experiência. São sobretudo estes dois aspectos que tornam esta versão única, principalmente na descrição do covil do ogro e no acto do Olharapo passar a mão sobre o velo dos carneiros, ao mesmo tempo que profere a frase alatinada: “Passa tu que de lani es”.

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Isabel de Liar. Versiones de Milà en la Biblioteca de Menéndez Pelayo

Salvador Rebés

Manuel Milà i Fontanals foi o primeiro estudioso a assinalar a sobrevivência do romance de Isabel de Liar (Observaciones, 1853), although he published the oral versions a few years later (Romancerillo, 1882).A minha intenção foi dar a conhecer na íntegra essas versões, que Milà editara só parcialmente. Para tal, consultei os manuscritos originais, na Biblioteca de Menéndez Pelayo (Santander). As versões de Argentona surpreenderam-nos com um diálogo entre rei e a sua amada defunta, alternativa sequencial desconhecida até agora na tradição deste romance.

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El Infante Delator: Modelos Patrimoniales, Vulgares y Virtuales en el Romancero Tradicional

María Jesús Ruiz

Este artigo parte da consideração da personagem romancística como uma unidade aberta, aberta — tal como o género em que vive — à herança e à inovação em cada uma das suas recriações. Deste ponto de vista, parece válido tentar a análise de determinados arquétipos com o objectivo de determinar o modo como se adequam às preferências éticas e estéticas dos diferentes contextos transmissores. Como ensaio desta proposta metodológica, o artigo descreve o comportamento de uma personagem extremamente recorrente — a criança delatora — em reportórios diferenciados pela sua situação cronológica.
Pretende-se delimitar, em primeiro lugar, os aspectos que formam o arquétipo no romanceiro patrimonial e, em especial, nos romances de temas históricos e religiosos, âmbito em que a personagem da criança delatora aparece com mais frequência e é mais detalhadamente caracterizada. Estabelecido o perfil diferencial do arquétipo, analisa-se a sua variabilidade no romanceiro da tradição moderna, no qual se podem encontrar três diferentes recriações, adequadas, cada uma delas, ao tipo de reportório: a derivação vulgar, a atroz e a burlesca. Tal análise permite comprovar como, na transmissão da unidade personagem, existem recursos concretos postos ao serviço da adaptabilidade de um dado elemento a cada contexto recriador.

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Notes to some Stories of Arabische Maerchen, 2nd vol., translated and edited by Max Weisweler (Notas a Algumas Histórias dos Arabischen Maerchen, 2º volume, traduzido e editado por Max Weisweiler)

Elisheva Schoenfeld

Nos Arabische Maerchen, Weiseiler publicou histórias das colecções de Al-Ibshihi, Al-Jaffη’η, Ibn Hijjah, assim como do tratado de zoologia As Vidas dos Animais, de Damiri. Estes autores viveram entre meados dos sécs. XIV e XV. As histórias examinadas são extraídas do capítulo “Von den Wundern der Gnade” (=sobre a magia da misericórdia) e transmitem sobretudo valores morais. É investigada a questão de quando e como as histórias judaicas foram absorvidas pelos muçulmanos, assim como a estreita relação entre as lendas dos dois povos.

Para comparar o material árabe e judeu, seleccionámos nove histórias. Cinco das lendas investigadas, assim como o motivo do “Nome Inefável” na história com o mesmo nome, parecem ser de origem judaica, uma vez que os paralelos hebraicos apontam para fontes que precedem o Alcorão e têm em parte origem numa minoria judaica vivendo num território hostil. A origem das restantes histórias não pôde ser determinada, uma vez que as fontes dos paralelos na literatura judaica são posteriores ao Alcorão.

Como as culturas judaica e islâmica viveram lado a lado durante séculos, influenciando-se mutuamente, também os contos foram transmitidos em ambos os sentidos. Além de recorrer à sua própria imaginação, os contadores profissionais árabes assimilaram de fontes judaicas e cristãs, assim como os escritores judeus e os Midrasim absorveram histórias de origem “mista”. O longo período de influências mútuas é, segundo a formulação do Prof. Goitren, um período de “simbiose creativa”. Esperemos que uma “simbiose creativa” venha a ser restabelecida, em particular entre os Israelitas e os Palestinianos.

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Capuchinho Vermelho — II: Quadro Sazonal e Simbolismo Cíclico

Francisco Vaz da Silva

O presente artigo explora indícios duma dimensão sazonal, associada a concepções cíclicas de regeneração, na tradição do conto AT 333. Uma leitura conjunta de textos de índole diversa — incluíndo clássicos latinos e etnografias modernas — propõe-se estabelecer, numa perspectiva de “longa duração”, a presença de representações simbólicas relativas a períodos particulares do ciclo anual, assim como sugerir a relevância destas representações para uma interpretação global do tema Capuchinho Vermelho que propicia a integração do estudo num quadro comparativo intercultural.

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