Revista ELO 13 / 14

Index

“Nota Introdutória”, J. J. Dias Marques

O Conto Mítico de Apuleio no Imaginário Baiano, Doralice Fernandes X. Alcoforado

As Contaminações no Conde Claros em Hábito de Frade Português, Sandra Boto

Ukrainian Folk Prose Tradition and Its Performers of the Past and Present (On the Materials from the Village of Ploske, Chernihivsky Region), Inna Golovakha-Hick, Olesya Britsyna

Des Récits sans Mémoire, ou Pourquoi Jean Resta Garçon, Josiane Bru

Des Polyphonies Sauvées des Eaux: Les Représentations de ‘la Tradition’ dans une Micro-localité de la Serra de Gerês, Anne Caufriez

Monkey-spouse Sees Children Murdered, Escapes to Freedom! A Worldwide Gathering and Comparative Analysis of Camarena-Chevalier Type 714, II-IV Tales Part II: “Beyond Europe”, Georges T. Dodds

Sete Novos Romances da Ilha da Madeira, Manuel da Costa Fontes, Maria-João Câmara Fontes

Apostillas al Catálogo Tipológico del Cuento Folklórico Español – II, José Fradejas Lebrero

Palmira Jaquetti i Isant, Catalan Folk Song Collector (1895-1963), Simon Furey

El Agua, el Canto, el Metal, y su Relación con el Mal y los Hacedores de Tormentas, Fernando D. González Grueso

The Night is Yours, the Day is Mine! Functions of Stories of Night-time Encounters with Witches in Eastern Slovenia, Mirjam Mencej

A Poesia Popularizante de Vitorino Nemésio, Carlos Nogueira

Narratives on Dream’s Effect on People in Lithuanian and Latvian Oral Folklore, Asta Višinskaitė

De ‘La Campana de Huesca’ a los Acertijos de Stalin: Representaciones de la Violencia y Alegorías Vegetales, José Luis Garrosa Gude

Los Clásicos, la Emblemática y la Razón de Estado: Lecturas Áureas de ‘La Campana de Huesca’, Alberto Montaner Frutos

Tiranos (Gengis Khan, Periandro, Anakin) y Dictadores (Ramiro II, Elidur, Moisés, Odín, Luke Skywalker): Los Mitos y las Metáforas del Poder, José Manuel Pedrosa

O Conselho do Marquês, Isabel Cardigos


Resumos

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O Conto Mítico de Apuleio no Imaginário Baiano

Doralice Fernandes X. Alcoforado

Partindo do conto mítico “Eros e Psiquê”, de Apuleio, autor latino do século II, estuda-se a trajetória desse conto e a sua repercussão, ainda hoje, em versões de “A Bela e a Fera”, passando pelo conto de fada francês, no século XVIII. A diversidade temático-estrutural, encontrada nas 24 versões recolhidas na Bahia entre 1986 a 1994 e estudadas neste trabalho, ensejou uma classificação tipológica desses textos em cinco tipos, o que comprova a presença do tema o noivo-animal também no imaginário baiano. Embora guardem certas semelhanças entre si, cada versão, contudo, apresenta diferenciada estrutura narrativa e conteúdo fabular diversificado.

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As Contaminações no Conde Claros em Hábito de Frade Português

Sandra Boto

Sendo a tradição portuguesa particularmente fértil em versões contaminadas do romance Conde Claros em hábito de frade, e sabendo que o conjunto de temas contaminadores é considerável num tema tão abundantemente recolhido, tem como propósito o presente estudo descrever o comportamento das contaminações no seio deste romance.

Numa primeira instância, e obedecendo a pressupostos diacrónicos de metodologia, observamos o traçado fabular do romance no século XVI e confrontamo-lo com a fábula que a tradição portuguesa apresenta, daí retirando algumas ilações quanto à posição das contaminações. Estas estão concentradas, regularmente, no início das versões, adquirindo o estatuto de enquadramento contextual da trama do Conde Claros em hábito de frade. Uma vez delimitada a lista de temas contaminadores, damos início à interpretação, do efeito potenciado pela presença de segmentos temáticos pertencentes aos temas contaminadores sobre a fábula do romance principal. A contaminação pode, não raro, produzir resultados subversivos, nomeadamente no que respeita ao retrato da personagem principal, o conde Claros.

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Ukrainian Folk Prose Tradition and Its Performers of the Past and Present (On the Materials from the Village of Ploske, Chernihivsky Region)

Inna Golovakha-Hick, Olesya Britsyna

Nos últimos dez anos, levámos a cabo trabalhos de campo sistemáticos na aldeia de Ploske (região de Chernihivsky, Ucrânia), tendo a primeira expedição sido feita em 1994. Nestas recolhas, obtivemos alguns materiais interessantes e inesperados, muito importantes para o estudo da vida da tradição narrativa em prosa na actualidade. Tendo em conta que, para uma análise comparativa, possuímos materiais recolhidos em Ploske há cem anos (por O. Malynka), pudemos observar a vida dos textos tradicionais em prosa nesta comunidade na sua dinâmica histórica e comparar o seu status em informantes activos e passivos no final do séc. XIX e no princípio do séc. XXI.

Os materiais recolhidos na passagem para o séc. XXI (gravámos mais de 300 textos em prosa, a maioria dos quais lendas demónicas e contos) mostram que, em Ploske, a tradição em prosa não diminuiu ao longo de um século, não obstante a crença muito enraizada da maioria dos folcloristas da segunda metade do séc. XX de que os géneros folclóricos tradicionais estão a morrer e de que o número de informantes sabedores está em contínua diminuição.

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Des Récits sans Mémoire, ou Pourquoi Jean Resta Garçon

Josiane Bru

Frente aos grandes contos maravilhosos, cuja profundidade e alcance iniciático são imediatamente perceptíveis, como situar as narrativas de transmissão oral, aparentemente sem sentido e instáveis, agrupados na categoria dos “Contos jocosos e facécias” da classificação internacional? Partindo das versões francesas do conto-tipo 1696 (O que é que eu devia ter dito? / O que é que eu devia ter feito?), em que o parvo aplica à letra e no momento errado as instruções que lhe foram dadas, oporemos a errância doméstica deste herói emblemático dos contos para rir ao itinerário com um fim do herói do conto maravilhoso, e estabeleceremos a relação, nos dois tipos de contos, entre a personagem do herói e a estrutura da narrativa que dele conta as aventuras. Observá-las “em espelho” permitirá compensar o fraccionamento do sentido que se exprime sob diferentes formas no conjunto das narrativas de transmissão oral.

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Des Polyphonies Sauvées des Eaux: Les Représentations de ‘la Tradition’ dans une Micro-localité de la Serra de Gerês

Anne Caufriez

A região montanhosa do noroeste de Portugal é conhecida há muito pelos seus cantos polifónicos femininos, que apresentam microvariações duma aldeia para outra e estavam tradicionalmente ligados à cultura dos cereais (centeio e milho).

Há muito que a aldeia de São João do Campo (concelho de Terras de Bouro, distrito de Braga) não pratica a agricultura, mas as suas mulheres continuam a cantar em polifonia de modo perfeito, usando as vozes como actividade recreativa e transmitindo às filhas a arte de cantar. Uma das razões para a idealização dos seus cantos poderia ser a desaparição da aldeia vizinha, Vilarinho da Furna, engolida pelas águas duma barragem.

Em São João do Campo convergem, no entanto, outras “tradições” musicais: a dos antigos habitantes de Vilarinho da Furna, que comemoram musicalmente todos os anos a sua aldeia desaparecida; e a dos habitantes duma localidade vizinha, Aboim da Nóbrega, que à aldeia de São João do Campo vêm entoar cantos petitórios de chuva, dedicados a São João. O amor pela terra é aqui propício a práticas musicais que, todas elas, se reclamam da “tradição”, embora sendo radicalmente diferentes, mesmo heteróclitas.

Em São João do Campo convergiram também diversas experiências “de campo”: a de Virgílio Pereira, a de Michel Giacometti e a minha, através das quais a noção de “tradição” é vista de modo diferente.

Além de determinar as diversas funções dos cantos polifónicos femininos (ceifa, malha do centeio, monda, desfolhada do milho, secagem do linho, artesanato, festas...), este artigo levanta também a questão de como definir “a tradição”.

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Monkey-spouse Sees Children Murdered, Escapes to Freedom! A Worldwide Gathering and Comparative Analysis of Camarena-Chevalier Type 714, II-IV Tales Part II: “Beyond Europe”

Georges T. Dodds

Na primeira parte deste artigo (ver E.L.O, 11-12: 73-96), foram discutidas as origens europeias do conto da esposa do macaco, em que uma mulher abandonada numa ilha deserta é forçada a tornar-se a esposa de um enorme símio e a mãe do filho deste. Mais tarde, a mulher foge atravessando as águas, enquanto o macaco mata o filho à vista de todos. Este conto corresponde às partes II e sobretudo III e IV do conto-tipo 714 de Camarena-Chevalier.

Nesta segunda parte do artigo, apresentam-se e comparam-se vários contos, por vezes muito recentes, originários da Rússia, da Ásia Central e do Sudoeste, da tradição árabe e do continente americano. O lugar da acção nem sempre é uma ilha e o sexo do parceiro humano do símio não é o mesmo, mas um certo número de elementos aparecem recorrentemente, incluindo a coabitação entre símio e ser humano e o assassínio do filho junto de uma barreira aquática que ajuda o ser humano a escapar. Esta análise mostra que o conto-tipo em causa existe em muitos lugares do mundo.

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Sete Novos Romances da Ilha da Madeira

Manuel da Costa Fontes, Maria-João Câmara Fontes

Este artigo apresenta 7 das 54 versões de romances recolhidas por Maria-João Câmara Fontes em três aldeias madeirenses em Julho de 1990. Estas versões representam um total de 11 romances: 1. O Parto em Terras Alheias (trata-se da segunda versão deste romance descoberta na Madeira); 2. Frei João; 3. Bernal Francês + Claralinda + A Aparição; 4. Conde da Alemanha; 5. A Infanta Seduzida + Conde Alarcos + Flérida; 6. A Confissão de Nossa Senhora; 7. Vida de Freira. Cada texto é acompanhado por uma bibliografia das versões portuguesas publicadas, a qual inclui uma secção dedicada às versões recolhidas entre os emigrantes radicados na Nova Inglaterra, Califórnia e Canadá, a fim de destacar a sua importância. Quando apropriado, a bibliografia inclui também listas de versões brasileiras, galegas, castelhanas, catalãs, sefarditas, hispano-americanas e da tradição antiga (especialmente do século XVI). A última lista, que devemos ao trabalho de Samuel G. Armistead, proporciona uma correlação com as baladas pan-europeias.

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Apostillas al Catálogo Tipológico del Cuento Folklórico Español – II

José Fradejas Lebrero

Comentário de quatro contos-tipo internacionais, a cujo corpus se acrescentam novas versões, sobretudo espanholas, que não figuram nos catálogos de Uther ou de Camarena-Chevalier. Trata-se dos tipos ATU 217, O gato com a vela; ATU 927 (2) Vencer o Juiz com uma Adivinha / ATU 985*, A Filha que Amamenta o Pai (Caritas Romana); AT 927 (c), Absolvição de um Pecado de Ignorância; e ATU 939A, O Soldado que Regressou é Assassinado.

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Palmira Jaquetti i Isant, Catalan Folk Song Collector (1895-1963)

Simon Furey

Palmira Jaquetti foi uma das mais importantes colectoras de canções tradicionais que participaram no grande projecto catalão denominado Obra del cançoner popular de Catalunya, embora continue a ser muito pouco conhecida fora da Catalunha. Segundo ela, durante as recolhas que levou a cabo nos anos 20 e 30 do séc. XX, coligiu cerca de 10 000 canções, sobretudo nos contrafortes dos Pirinéus. Mulher de grande nível intelectual, conquistou o reconhecimento académico, não obstante as desvantagens: saúde frágil, um marido que a abandonou, a péssima situação sociopolítica das mulheres nos anos que conduziram à Guerra Civil e nos que se lhe seguiram. Este artigo analisa as declarações e as realizações de Palmira Jaquetti e conclui que ela merece um reconhecimento muito maior, devendo ser considerada como pertencendo ao pequeno grupo dos mais importantes colectores de canções tradicionais europeias no séc. XX, que inclui Cecil Sharp e Béla Bartók.

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El Agua, el Canto, el Metal, y su Relación con el Mal y los Hacedores de Tormentas

Fernando D. González Grueso

São muitos os exemplos de fazedores de tempestades que povoam a literatura tradicional oral. No entanto, a partir de alguns exemplos de fazedores de tempestades que não gozam da fama, por exemplo, do mitológico Thor, proporemos no presente artigo uma série de motivos aplicáveis a todos eles.

Este artigo explora os métodos de expulsão do mal, centrando-se nas relações que ele estabelece com a água/tempestade/mar, o canto e o metal. De aí que, depois de uma breve introdução ao papel que tais elementos exercem, procuremos determinar as funções que exercem sobre os seres malignos e os fazedores de tormentas. Da parte principal deste estudo, extrairemos uma conclusão de carácter social e literário. Por fim, e em apêndice, acrescentamos uma aparente excepção pertencente à literatura oral japonesa, para a qual indicamos um muito possível precedente e influência directa. Tal aparente excepção mais não faz que levar-nos a uma reflexão mais geral sobre a utilidade que a literatura popular oferece a uma comunidade e/ou sociedade.

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The Night is Yours, the Day is Mine! Functions of Stories of Night-time Encounters with Witches in Eastern Slovenia

Mirjam Mencej

Este artigo debruça-se sobre as possíveis funções de memorates sobre encontros nocturnos com bruxas recolhidos em 2001-2002 em zonas rurais da Eslovénia oriental.

As bruxas apareciam sob a forma de luzes e/ou faziam as pessoas extraviar-se, impediam-nas de prosseguir o seu caminho ou “transferiam-nas” para outro lugar.

As histórias sobre pessoas levadas por seres sobrenaturais poderiam fornecer uma desculpa culturalmente aceitável para um comportamento desviante, por exemplo num estado de embriaguez. Certos memorates mostram claramente que essas experiências vezes davam-se muitas vezes no regresso das feiras ou do trabalho e em ligação com bebedeiras. Pelo menos em certos casos, as descrições desses encontros serviam talvez para ocultar experiências sexuais ou fantasias sexuais de jovens do sexo masculino excitados pela tensão sexual.

As mulheres poderiam contar estas histórias como uma “arma” contra maridos ciumentos, e estes memorates tinham também uma função económica: as pessoas largavam do trabalho mais cedo e iam para a cama, de forma a não encontrar as bruxas, para estarem bem descansados para o trabalho no dia seguinte.

Mas a mais importante função dos memorates sobre encontros com “bruxas nocturnas” era a demarcação de espaços-fronteira e tempos-fronteira, lugares que se tornavam perigosos em certos momentos do dia.

Por fim, os memorates tinham uma função psicológica: contar histórias sobre essas experiências (lugar, tempo, forma) proporcionava às pessoas um modo seguro de se orientarem no espaço, tornava-as conscientes de quais os movimentos no espaço e no tempo que eram ou não permitidos e – se não seguiam tais regras – mostravam-lhes as consequências do seu comportamento.


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A Poesia Popularizante de Vitorino Nemésio

Carlos Nogueira

Publicado em 1950, Festa Redonda é um livro de poeta proteiforme, extasiado com a substância telúrica e literária da sua terra natal. A força apelativa dos poemas coligidos nesta obra provém em grande parte da literatura de transmissão oral, à qual a criatividade nemesiana dá o cunho de poesia individual e original. A euforia do telurismo e da oralidade artística de Festa Redonda interage com as características da poesia moderna que percorrem grande parte da poesia de Vitorino Nemésio: a austeridade e a ideia obsidiante de vazio.

A poesia de Festa Redonda, radicada nas fontes remotas da iniciação humana e literária de Vitorino Nemésio (quadras e outros géneros literários orais, com os quais ele conviveu desde a infância), é, numa palavra, um macrodiscurso festivo que nunca deixará de o acompanhar enquanto poeta de expressão e de conteúdos múltiplos e versáteis. Ler estes textos é por isso entrar de algum modo na individualidade de um espírito criador que demanda e constrói a sua própria (uni)diversidade idiossincrásica em comunhão com a oralidade literária da sua comunidade.

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Narratives on Dream’s Effect on People in Lithuanian and Latvian Oral Folklore

Asta Višinskaitė

Examinámos neste artigo alguns casos de sonhos no folclore narrativo dos países bálticos. Pretendemos estudar o efeito de um sonho no herói-protagonista em narrativas sobre curas miraculosas, quando determinada informação é obtida através de um sonho. Utilizámos informação recolhida no séc. XX.

Dois aspectos emergiram desta análise: 1. O efeito interno no protagonista da narrativa. Encorajado por um sonho, o protagonista actua e alcança resultados positivos. 2. O efeito externo nos ouvintes da narrativa e no próprio narrador, quando a acção do protagonista é tomada como exemplo. O caso de um herói tem efeitos na audiência e no narrador. Histórias como estas aconselham as pessoas a terem fé nos sonhos e nas acções que eles induzem a praticar.

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De ‘La Campana de Huesca’ a los Acertijos de Stalin: Representaciones de la Violencia y Alegorías Vegetales

José Luis Garrosa Gude

Neste artigo, analisam-se alguns paralelos da lenda d’ “O Sino de Huesca” encontrados na imprensa e no cinema contemporâneos. Esses paralelos constituem novos e curiosíssimos elos da longa corrente de metamorfoses do motivo d’ “O conselho enigmático”, do testemunho de Heródoto às criações artísticas dos nossos dias. Juntamente com esse motivo, estudamos também outro a poderemos chamar “A ceifa de cabeças como se fossem vegetais”, típico da literatura épica e já assinalado nos estudos de Samuel G. Armistead e Diego Catalán, juntamente com outras alegorias vegetais sobre a guerra e o assassínio.

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Los Clásicos, la Emblemática y la Razón de Estado: Lecturas Áureas de ‘La Campana de Huesca’

Alberto Montaner Frutos

Na Iconologia de Cesare Ripa, a alegoria da Razão de Estado apresenta uma série de elementos em que se destaca o emprego da imagem do ceptro abatendo as hastes mais altas de um conjunto de papoilas, tirada de Tito Lívio, e que (por derivar de fontes semelhantes ou por coincidência temática) aparecia também na velha lenda aragonesa do “Sino de Huesca”. A ligação entre o lendário episódio histórico aragonês e o texto do historiador latino (explicitamente feita por Jerónimo Zurita) leva, no “Século de Ouro” espanhol, a uma releitura da narrativa cronística medieval em chave política, a qual, como não podia deixar de ser, se adequa à mentalidade da época. Assim, a explicação das supostas motivações do rei de Aragão Ramiro II no séc. XII converte-se numa releitura do episódio em chave tacitista. O resultado final é que o referido motivo conduz os historiadores aragoneses da época (o próprio Zurita e Martínez del Villar) a uma posição que coincide em muitos aspectos com a Razão de Estado como Ripa a tinha representado na sua alegoria.

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Tiranos (Gengis Khan, Periandro, Anakin) y Dictadores (Ramiro II, Elidur, Moisés, Odín, Luke Skywalker): Los Mitos y las Metáforas del Poder

José Manuel Pedrosa

O motivo narrativo do tirano que corta a cabeça dos súbditos rebeldes como se fossem espigas ou plantas está atestado em contos, lendas e epopeias de muitos tempos e lugares, da Grécia de Heródoto à China de Gengis Khan. E chega, por vezes muito transformado e desenvolvido, até à moderna ficção, incluindo o romance e o cinema. Pelo caminho, mistura-se com outros motivos e integra-se em tipos narrativos diferentes, cujo tema costuma ser o abuso do poder político.

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O Conselho do Marquês

Isabel Cardigos

O precedente grupo de artigos dedicados ao mesmo tema –o conselho de decapitar súbditos rebeldes expresso pela acção de cortar as espigas mais altas de uma seara– ocasionou esta nota, em que se propõe um novo subtipo para aquela narrativa, que aparecerá na tradução portuguesa do Catalogue of Portuguese Folktales com o número 924*A, O Conselho dum Tirano. Transcrevem-se também as duas redacções da sua única versão portuguesa, ambas presumivelmente de Cardoso Martha, a primeira de 1912 e a segunda de 1931, procurando ver nelas sinais do tempo que as separam.

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