Desanda Cachamorrinha

Havia uma vez umas pessoas que viviam muito mal ,uma mãe que não tinha marido, só vivia com três filhos. Dois eram, tinham cabeça de boi e o outro mais novo era assim meio maluco. Era assim despassarado... Não, a cabeça, não era assim muito bom da cabeça.

E então o mais velho via aquela miséria em casa e disse:

-Ó mãe, eu vou correr a ver se arranjo algum dinheiro.

E foi. Pegou-se nele, foi, foi , foi, arranjou a casa de um rei e foi servir. Esteve lá, esteve, uns quantos meses, uns quantos meses, esteve, diz ele assim:

-Ó, eu vou ver a minha mãe, que eu não sei como a minha mãe está, coiso, estava a passar mal mais os meus irmãos, e eu vou ver a minha mãe.

-Então vai. Olha, leva esta mesa. Leva esta mesa, é só dizer assim: “põe-te mesa!”.

A mesa punha-se de tudo o que era bom. E então, o que é que ele, com a mesa às costas, com a mesa às costas, com a mesa às costas, que aquele caminho era muito longe, viu... pelo caminho encontrou uma casinha, foi pedir para ficar lá dormindo. Pediu para ficar lá dormindo, veio uma velhota:

-Ah, então o senhor ponha aqui a mesa aqui e tem aqui este quarto, o senhor dorme aqui no quarto. E então ela disse logo... o rapaz disse p’ra velhota:

-A senhora não diga “Ponha-te mesa!”.

-Ai, não menino, eu não digo nada!

Mas a mulherzinha foi-se deitar e chamou-lhe aquilo à atenção.

-Que jeito eu não dizer “Põe-te mesa!”? Mas o que é que foi? Agora vou eu ao pé da mesa e vou perguntar.

E a mulher foi a o pé da mesa e disse “Põe-te mesa!”. Ora quando ela viu a mesa pôr-se de toda a qualidade de comida, tudo o que era bom.

-Ah isto é que é bom p’ra mim, que eu preciso disto!

E esconde aquela mesa e põe outra igual, sim, pouco mais ou menos. O rapaz levanta-se cedo, põe a mesa às costas, para apanhar o fresco da manhã e põe-se a caminho de casa. Chegou a casa disse assim:

-Mãe, acabou-se a fome! Venham todos encher a barriguinha! Vamos p’ra mesa.

Sentou a mãe à mesa, sentou os irmãos todos à mesa, ele à mesa:

-Queres ver aparecer de tudo? “ Põe-te mesa!”

Ah a mesa não se punha de nada, pois não era a mesma, não era a mesma mesa...

A mãe:

-Ai, este também já está parvalhão e eu pensava que só tinha um, já tenho outro, também já está parvalhão! Agora “Põe-te mesa!” então a mesa não se pôs nada:

-Ai, foi aquela velha, e cozido e...eu fui dormir na casa dela, foi a velha! – o moço a se lamentar.

Diz o do meio assim:

-Agora vou-me eu! Fica lá tu aqui, já não estás muito bom da cabeça... Agora vou eu servir a ver se eu apanho p’raí, arranjo p’raí algum dinheiro p’ra tirar desta miséria, que isto é só miséria.

E então lá foi esse. Foi, foi, foi, foi, onde é que ele foi bater: à porta do mesmo homem. Chegado àquele coiso, foi lá. O outro disse onde é que tinha estado a servir e o rapaz, o outro foi lá. Foi, esteve, esteve, esteve, diz ele assim:

-Ai, vou ver a minha mãe, vou ver como é que está aquilo p’ra lá, que aquilo estava uma miséria, a gente vive muito mal.

Diz o homem ( o homem era muito bom, se calhar tinha pactos com Deus, fazia milagres, uma coisa dessas) e arranjou-lhe um burro. Arranjou-lhe um burro e disse:

-Levas aqui este burro, que é para te acabar a miséria. É só dizeres “Caga, burro!”.

E então, o burro começava a cagar (?) dinheiro, a cagar dinheiro. E então o moço vinha todo muito satisfeito. Vinha muito satisfeito, veio andando , a cavalo no burro, andando, andando , onde é que ele veio ficar? Veio ficar à porta... fez-se noite na mesma casa e pediu pousada àquela velhota :

-Ah, vocemecê dava— me aqui pousada, dava p’ra eu ficar aqui esta noite?

-Dou, sim senhora, menino, dou sim senhora! Durma além naquele quarto.

-Ai, mas eu tenho aqui um burro e o burro não pode ficar na rua...

-Ah, então traga o burro para a alpendrada.

-Mas a senhora à noite não diga “Caga, burro!”.

— Ai não, menino, não digo nada disso!

Ah, foi p’ra cama, dia ela assim:

-Isto será como a mesa? Ah, deixa-me lá ver o que é que o burro tem...

E foi à alpendrada e diz “Caga, burro!”. Quando ela vê o burro estar só a cagar dinheiro.

— Ai, este burro... Tenho de arranjar um parecido a este!

A velha lá arranjou um parecido àquele, lá foi lá p’ros campos, ele lá arranjou um burro. Tirou aquele e pôs outro, da cor do outro. O moço de manhã levanta-se, põe-se a cavalo no burro e vai ele p’ra casa. Chega a casa:

-Ó mãe, traga lá aí uma canastra, acabou a miséria. Alguém tinha que ter coiso nisto, acabou-se a miséria aí, acabou-se!

Vem a mãe com uma canastra, põe ao pé do rabo do burro “Caga, burro!”. O burro cagava nicles(?). (...)

-Ai, tenho os meus três filhos malucos. O que é de mim, o que é de mim? Olha, o mais velho, maluco, trazia uma mesa e este agora traz um burro que caga dinheiro, então, mas o que é isso?

A mulherzinha, coitada, estava pela vida não ter. Diz esse mais novo, que era Zé.

— Ó mãe,— era maluco— ó mãe agora quem vai sou eu!

-Então onde é que vais tu, Zé?

— Vou-me eu, eu é que vou. Vou agora eu ver se trago qualquer coisa p’ra casa, que isto é uma miséria. Vou eu.— ele a fazer aquela fala de maluco.

E lá foi o Zé.

— Agora é que (...).

Foi o filho mais novo, lá foi:

-Eu vou acabar com a miséria em casa, agora vou eu!

-Agora é que este vai e nunca mais vem, este maluco alguma vez sabe o caminho de casa? – dizia a mãe.

De maneira que lá vai ele, lá vai ele, lá vai ele, lá vai e onde é que ele foi: foi bater à porta, acabava-se o dia, começava de manhã, acabava-se o dia, era àquele castelo que... foi lá que ele foi pedir. Foi lá pedir, foi lá pedir e ficou lá. Depois de estar lá um mês:

-Ah, eu quero ir ver a minha mãe, eu, eu vou-me embora, vou ver a minha mãe.

— Então está bem. Olha, toma esta cachamorrinha, era uma cachamorrinha, (era um pau comum coiso redondo na ponta.) Mas tu não digas “Cachamorrinha!” à vista de alguém. Quando alguém diga tem de se dizer “Pára, Cachamorrinha!”

— Está certo.

Bem, vem o moço, com aquilo às costas, vinha com aquilo às costas, carregado, carregado, carregado, andou, andou, andou, andou, andou, fez-se noite, era naquela casa, quando se fazia de noite era ali naquele ponto.

— Vou-me a pedir aqui pousada, aqui a esta casa.

O moço foi pedir pousada, era maluco, foi pedir pousada:

— Ó minha senhora, não me dá aqui pousada esta noite?

— Dou sim, menino, dou sim, menino!— ela já se tinha dado bem com dois, era mais outro...

E então lá foi.

— Menino, dorme aqui neste quarto.

— Então a minha cachamorrinha fica aqui ao pé da porta. Mas a senhora não diga “Desanda, Cachamorrinha!”.

— Ai menino, não, não digo, eu não digo nada disso!

Oh, apanhou a moço a dormir, a velha já se tinha dado bem com as duas coisas, “Vamos lá a ver o que é que a cachamorrinha tem...” Foi, chegou ao pé da cachamorrinha e disse:

— Desanda, Cachamorrinha!

Ora a cachamorrinha começou à porrada com ela, começou à porrada, aquilo começou a se mexer e a dar porrada na cabeça da velha e a dar porrada na cabeça da velha, a velha a gritar, o moço acordou, o, maluco.

— Então o que é isso?

-Ai menino, ai menino, eu estou quase morta, esta cachamorrinha está só a dar porrada em mim! Ai eu estou quase morta!

— Então já sei! Foi a senhora que roubou a mesa e foi a senhora que roubou o burro dos meus irmãos e se você não me dar isso agora eu deixo a cachamorrinha matá-la!

-Ai menino, a mesa está além e o burro está além!

Lá ele foi buscar aquilo tudo e depois mandou parar a cachamorrinha, depois de já ter as coisas. Bem, põe-se a cavalo no burro, a mesa à frente e a cachamorrinha em cima. E põe-se a cantar:

— Larololó, laraloló, eu é que trago a fortuna toda p’ra casa! E eu é que sou maluco e eu é que sou maluco e eu é que trago o comerzinho todo!

Chegou a casa, reuniu os irmãos, de roda da mesa:

— Põe-te mesa!

Vá de comida com fartura...

— Caga, burro!

Vá de o burro cagar dinheiro... Juntou muita vizinhança, ali numa grande festa, fizeram uma grande festa, toque e baile, tudo, muita gente, já estavam ricos... A mesa punha o que queriam, o burro cagava o dinheiro que era preciso. E no fim daquilo tudo, baile:

— Desanda, cachamorrinha! – porrada na família toda!

Acabou-se, então, a história.

 

Colectora: Sandra Boto 2000, Lagoa; informante: Lucília Maria Fernandes

Classificação: AaTh 563, A Mesa, o Burro e o Pau

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