A menina que casou com um bicho

Vou-me contar uma história, no tempo em que havia encantamentos e encantavam as pessoas, ás vezes por uns determinados tempos e sem passar aquele tempo, pois, a pessoa não se tornava a desencantar. E um príncipe que foi encantado por bicho, em vez de ser por pessoa, foi, estava num bicho; mas falava como as outras pessoas na mesma. E tentou falar o namoro a uma rapariga p’ra casar com ela. E depois, ela depois disse que sim. Namoraram-se uns tempos.

Mas as pessoas atentavam a rapariga:

— Ah, mas atão, tu agora ires casar com um bicho! Atão e enfim, isso também não é vida nenhuma e tal.

De maneiras que ela dizia:

— Ah, mas é que eu a primeira noite que for dormir com ele, eu mato-o que é para ficar com a fortuna dele. E depois caso com outro.

Bom, assim se foi passando. Mas ele antes que casasse com ela tentou primeiro explorar as maneiras dela, a ver se ela era boa para ele ou não. E descobriu que, e ficou a ver que ela dizia que a primeira noite que dormisse com ele que tentava matá-lo para lhe ficar com a fortuna.

Ora, isso aconteceu que deu-se o contrário; ele é que a matou. Depois matou-a e começou a andar à roda de outra irmã, que era logo ao pé dela. Aquilo eram três irmãs e primeiro casou com a mais velha, e depois era a outra do meio. A outra continuou a mesma coisa. Também a atentavam que ia casar com um bicho e enfim, pois, e podia acariciar um rapaz jeitoso e assim, que também não era vida nenhuma.

Mas ela disse:

— É que eu mato-o, para ficar com a fortuna.

Por encurtar de razões, deu-se o mesmo caso. Na primeira noite que dormiu com ela, ele é que a matou.

Bem, começou a andar à roda da outra.

As pessoas diziam-lhe:

— Atão, mas atão, não tens pena, agora, atão agora vão casar com um bicho?! Atão isso não tem jeito nenhum! Uma rapariga como tu, uma rapariga bonita e bem parecida!

— Eh, olha não m’importa, eu quero é fazer uma vida, uma vida boa. Não m’importa lá ser, ‘tar em bicho. Quero é fazer uma vida bonita com ele.

Bom, ele tentou falar com ela, sem ela ‘tar a pensar que era ele e perguntou-lhe:

— Ah, mas atão tu não tens pena de ir casar com um bicho? Eh, se eu fosse a ti, à primeira noite que dormia com ele, eu matava-o.

Diz ela:

— Não, eu nã’ m’importa. Tomara eu que ele não morra. Eu gosto muito dele na mesma. Eu não vou fazer isso.

Depois casaram. Logo na primeira noite que foram dormir juntos, ele disse-lhe, p’rá rapariga:

— Despe uma sainha, que eu dispo uma pelinha.

Assim foi, até despir sete sainhas que ela tinha vestidas e que ele tinha outras sete pelinhas. Ao fim das sete pelinhas ficou um rapaz, um príncipe. Mas só vivia assim com ela, quando estava sozinho, quando fosse para sair fora, tinha de vestir as sete pelinhas porque o encantamento tinha-lhe sido dado para ser assim.

Depois arranjaram três filhas. Estiveram uns quantos anos juntos e ele pediu-lhe que nunca o descobrisse, que ele que despia aquelas pelinhas e que a mandava a ela despir as sete sainhas, que nunca o descobrisse, se não dobrava-lhe o encantamento.

Assim viveram alguns anos.

Depois as vizinhas atentavam-na:

— Ah, mas atão tu viveres com um bicho, uma rapariga como tu, teres casado com um bicho e enfim!

Ela ia-se amolgando e enfim, pois e não descobria. Mas até que uma vez, tanto elas implicavam com ela e a atentavam, até [que] uma vez ela disse assim:

— Não, mas é que ele quando (ele) se vai deitar comigo, ele diz-me para eu despir uma sainha que ele despe uma pelinha. Eu tenho que ter sete sainhas para ele despir as sete pelinhas. Ao fim das sete pelinhas fica num rapaz. E assim vivemos nestas condições, mas é só quando é para sair [que] ele tem de vestir as sete [pelinhas].

— Depois uma vez eu descobri [revelei] que ele se fazia num rapaz, dobrei-lhe o encantamento. Quando cheguei a casa, diz-me ele: “Ai tirana que me dobraste o meu encantamento. Agora se me queres ver tens que mandar fazer três pares de sapatos de ferro e ir Entre o Mar e as Pedras Negras, se me quiseres ver quando lá chegas, já levas os sapatos estragados e já vais descalça.”

Bom, e assim desapareceu.

[A mulher] viveu assim alguns [anos] com as filhas; foram-se criando. Até que uma vez pensou no que o marido lhe tinha dito, e que tinha bastante pena dele, de o ter descoberto. E tentou arranjar três pares de sapatos de ferro e pôs[-se] a caminho, mais as três filhas, a ver se encontrava o marido.

Lá foi andando, foi andando, foi andando. Foi pedir pousada a uma casa. E a noiteceu, pois, tinha que pedir pousada. Estava [lá] uma velhota. A velhota disse:

— Ai, eu dava-lhe aí pousada, mas atão eu não posso dar porque a minha filha depois mata-a. Mas, enfim, se quiser ficar, eu peço-lhe, (e) a ver se ela não lhe faz mal.

E procurou-lhe:

— Atão, o que é que a senhora anda por aí fazendo?

— Ah, pois, eu ando procurando por Entre o Mar e Pedras Negras.

— Ah, pois a minha filha é capaz de saber. Eu logo lhe procuro.

Bom, mais logo aparece uma luz muito clara em casa e ouve uma voz dizer assim:

— Minha mãe, tenho fome quero comer

cheira-me a carne real,

vá buscar quero matar!

— Ai filha, não, não faças mal. Isso é uma senhora que vem aí com três filhas. Vem procurando por Entre o Mar e Pedras Negras, e eu lembrou-me que tu andavas lá muito alta, que talvez alcançasses a saber onde é que era Entre o Mar e Pedras Negras.

Diz ela:

— Ah, eu não sei, mas encaminho para quem saiba, que anda lá mais alto do que eu. E eu não lhe faço mal, mas tem que me dar uma das filhas.

Bom, assim aconteceu. No outro dia de manhã teve que lhe dar uma filha, ou se não que a matava. E ficou lá uma filha. E deu-lhe uma prenda, que era uma manta de cobre. Levou-a junto dela, e encaminhou-a para o sol, que esta era a Lua. O Sol andava lá mais alto, que devia de saber melhor do que ela.

Bom, na outra noite a seguir foi ficar à casa da mãe do Sol. Deu-se (a mesma) a mesma conversa, que dava-lhe pousada, mas que tinha medo que o filho, que vinha de lá e que a podia matar. Mas que lhe pedia, e que podia ser que ele não lhe fizesse mal. Se quisesse ficar que ficasse. Procurando por Entre o Mar e Pedras Negras na mesma.

Mais tarde, um grande claror em casa, era como de dia.

E daí ouve uma voz dizer:

— Minha mãe, tenho fome quero comer

cheira-me a carne real,

vá buscar quero matar!

Disse [a mãe do Sol]:

— Não filho, não faças mal! Isso é uma senhora que ‘tá aí com duas filhas, vem procurando por Entre o Mar e Pedras Negras. E eu lembrou-me que talvez tu soubesses, que tu andas lá muito alto e p’ra a encaminhares p’ra lá.

— Pois eu não sei, mas encaminho para quem saiba. Mas te que me dar é uma das filhas.

Bom, assim aconteceu. Teve que lhe dar outra filha e encaminhou-a p’ró Vento, que andava ainda lá muito mais alto. A outra noite a seguir foi ficar à casa da mãe do Vento. Aconteceu o mesmo, de ter que deixar lá uma filha, p’ra evitar que o Vento a matasse. E deu-lhe uma cama em ouro, que foi em troca, faz conta, da filha. E encaminhou[-a] p’ra onde é que ela havia de ir, que era já lá próximo.

Bom, aconteceu que ela foi-se ajustar lá numa casa para trabalhar, p’ra ganhar algum. Já na aira* onde vivia, ‘tava esse príncipe.

Bom, no outro dia, lavou a manta e pôs ao Sol a manta de cobre.

E havia lá uma rapariga que já tinha o casamento tratado [com o príncipe].

A mãe das três raparigas não queria vender. Só que lhe dava em troca de [ela a] deixar ir dormir uma noite com o príncipe.

Quando já ‘tavam deitados, a mulher que já tinha sido dele disse-lhe:

— Príncipe e doce laranja

Já três pares de sapatos estraguei

E três filhas perdi

E não te lembrarás de mim?

Ele já se tinha deixado dormir, não lhe respondeu nada, não ouviu. Pronto, passou-se.

No outro dia lavou e estendeu o lençol de prata [que lhe tinha dado o Sol]. Aparece lá a rapariga novamente, queria comprar o lençol de prata. Ela disse que só em troca de deixá-la ir dormir com o príncipe mais uma noite. Ela [a rapariga] nada disso queria, mas enfim como gostava muito do lençol... bem, deixou.

Depois de [se] deitarem diz:

— Príncipe e doce laranja

Já três pares de sapatos estraguei

E três filhas perdi

E não te lembrarás de mim?

Nada. Já se tinha deixado dormir, não ouviu. No outro dia... Ah, e nessa noite houve uma pessoa que se pôs a escutar alguma coisa que eles falassem, e ouviu a conversa da senhora. No outro dia contou ao príncipe. O príncipe pôs-se mais à alerta.

No outro dia lavou a cama, uma cama que era de ouro, tinha-lhe dado o Vento em recompensa da filha que lá lhe tinha deixado. Lavou a cama e pôs ao Sol a enxugar. Apareceu-lhe a mesma rapariga que ia casar com o príncipe, fazendo a compra da cama.

Ela disse:

— Eu não vendo, só dou em troca de me deixar ir dormir mais uma noite com o príncipe.

Ela não era por gostar, mas enfim, fazia o conjunto todo, deixou.

Depois de ‘tarem deitados disse-lhe novamente:

— Príncipe e doce laranja

Já três pares de sapatos de ferro estraguei

Já três filhas perdi

E não te lembrarás de mim?

E ele disse:

— Lembra-me sim!

Aí deu para entrarem em conversa. E [o príncipe] ia casar no outro dia. Chamou— -a para o casamento.

Foram casar. Depois ela foi lá assistir ao banquete.

E depois de terem comido, diz [o príncipe] assim:

— Ora meus senhores e minhas senhoras eu mandei fazer uma porta. A porta trazia a chave e eu perdi a chave dessa porta. Depois mandei fazer outra chave, depois de ter mandado fazer outra chave, achei a chave que tinha vindo logo na fechadura. Qual será a chave que pertence a essa fechadura? Será a que vinha já na fechadura da porta ou a chave que eu mandei fazer depois?

Isto foi falado p’ró pai da rapariga.

O pai respondeu:

— Pois eu acho que a chave que veio com a fechadura (que) é [a] que pertence à porta e não a que mandou fazer depois.

Diz ele, o príncipe:

— Pois, é o mesmo que acontece agora com a sua filha. Eu possuí uma mulher, perdi-a, e agora achei-a novamente. E atão, será essa que é a minha mulher perfeita e a sua filha pois, terá que ficar assim.

Pronto, e isto foi uma história assim um bocadinho longa, mas até que chegamos ao fim. Acabou-se.

 

Colectora: Isabel Encarnação dos Santos 1997, Marmelete; informante, Inácio dos Santos Manuel

Classificação: AaTh 425 A, Em Busca do Marido Desaparecido: O Noivo Animal

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