A Menina das Laranjas

Uma mãe tinha dois filhos, um menino e uma menina.

Naquele tempo era o tempo da seca e então não havia nada para comer. De maneira que depois, o que é que a mãe se lembrou? De matar. E então disse assim:

– Ó filhos vocês agora vão fazer um mandado à mãe, e o que chegar cá primeiro ganha uma fatia de pão com marmelada.

A menina como era muito gulosa foi e chegou a casa primeiro, e o irmão como encontrou muitos meninos ficou a brincar. A mãe assim que a viu deu-lhe a fatia de pão com marmelada e sentou-a no colo e disse:

– Ó filha, a mãe agora vai contar uma história.

E a menina gostava muito de histórias ficou, de maneira que deixou-se dormir. Deixou-se dormir e a mãe quando apanhou-a a dormir disse para a criada:

– Criada, olha, vai buscar a faca, o alguidar e a toalha.

A crida assim fez. Bem, ela matou a menina. Mais tarde vem o irmão. Veio o irmão e diz o irmão assim:

– Mãe e então a mana?

– Ora a tua irmã ainda não chegou, deve estar à da madrinha.

Bem, o irmão foi à da madrinha [e ela] não estava.

– Mãe, a mana não está à da madrinha.

– Então deve estar à da tia.

Foi à da tia. À da tia não estava. A mãe como já tinha o almoço pronto para ele levar o almoço ao pai que trabalhava no campo disse:

– Olha, já se faz tarde e tu vais agora levar o almoço ao pai. Mas não destapes o tacho.

Bem, ele assim fez. Foi, mas ele era muito curioso e então chegou lá à frente e sentou-se numa pedra e destapou o tacho. Destapou o tacho e viu a irmã morta dentro do tacho, e então foi-se embora a chorar. Ia a chorar quando encontrou uma velhinha. Diz a velhinha assim:

– Ó menino porque é que tu choras?

– Ai, pois a minha mãe matou a minha irmã e agora vou levar o almoço ao meu pai. Meu pai agora come a minha irmã.

Dizia ela assim:

– Olha não te importes. Toma lá esta bolsinha . quando o teu pai comer e deitar os ossos fora, tu apanhas os ossinhos e pões tudo dentro da bolsinha. Se ele te perguntar para que é, para que é que queres os ossos, tu dizes que é para dar ao cão da vizinha. E à noite quando te fores deitar põe a bolsinha debaixo do travesseiro.

Bem, ele assim fez. O pai comia e ele apanhava os ossos e metia dentro da bolsinha. Bem, veio para casa. À noite foi-se deitar e pôs a bolsinha debaixo do travesseiro. Bem, no outro dia apareceu-lhe a irmã na cama, com uma grande abada de laranjas, umas laranjas infinitas. Veio logo a criada muito à pressa.

– Menina não me dás uma laranjinha?

– Não que foste buscar o alguidar, a tolha e a faca.

Depois veio a mãe:

– Filha não dás uma laranjinha à mãe?

– Não que me mataste.

Depois veio o pai:

– Filha não dás uma laranjinha ao pai?

– Não que me comeste.

Depois veio o irmão:

– Mana não dás uma laranjinha ao mano?

– Não te dou nem uma, nem duas, toma lá todas que me salvaste.

 

Colectora: Fátima Martinha Sousa 1998, Faro; informante: Maria da Glória dos Santos Macário

Classificação: AaTh 720, Minha Mãe esfolou-me, meu Pai comeu-me

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